Harvard e o Ácido da Civilização

Artigo de Fernando Gabriel na Nova Cidadania (2005)

 O multiculturalismo enquanto ideologia política tem origem no relativismo cultural, que retirou à cultura o seu significado tradicional de processo educativo, de desenvolvimento da razão, e lhe conferiu um sentido completamente diferente: “cultura” passou a designar o conjunto de “práticas sociais caracterizadoras” das diferentes comunidades. O relativismo cultural nega a existência de qualquer forma de superioridade cultural: todos, bárbaros ou civilizados, temos uma “cultura” que é definidora da “identidade”. Todas as “culturas” são formalmente iguais, não comparáveis entre si e igualmente legítimas. A aceitação deste juízo de valor implica a necessidade política de “reconhecimento” e de protecção da “diversidade cultural”. No entanto, o multiculturalismo não é uma variante da tolerância liberal, antes representando uma versão extrema de intolerância. O discurso político multiculturalista transpõe para o plano cultural a representação marxista da sociedade como palco de uma permanente luta de classes. No cerne do projecto político multiculturalista não está a defesa da “diversidade cultural”, nem a necessidade de “reconhecimento” das outras culturas. O objectivo é promover uma revisão crítica e radical da “cultura ocidental”, susceptível de expor a corrupção e a decadência das democracias liberais. Nas variantes menos agressivas, as sociedades liberais devem ser politicamente reprogramadas obedecendo à pós-moderníssima “celebração da diferença”. Nas variantes niilistas, há que consumar a desconstrução do “projecto iluminista”, responsável por sociedades despóticas, assentes numa cultura de “opressão e exploração do outro”. As categorias do “opressor” e do “oprimido” são portanto as novas máscaras ideológicas do determinismo historicista hegeliano. Por um lado, a representação do “opressor” é deliberadamente redutora e caricatural: não existe nenhum “projecto iluminista”, mas sim uma multiplicidade de formas concretas de organização política resultantes de processos de composição histórica, onde factores aleatórios e imprevisíveis tiveram e têm um papel essencial. Por outro lado, a representação multiculturalista do “oprimido” também assenta em noções deliberadamente equívocas. A noção de “cultura” é enganosa: na maioria dos casos, as “culturas” não têm nenhum contexto geográfico e a “partilha de identidade” não é determinada pela história do indivíduo, mas sim pela sua função puramente ideológica. O interesse pela “cultura do outro” é meramente instrumental e sugere uma falsa “diversidade”: o afro-americano, a mulher ou o gay desempenham a função circunstancialmente útil de categoria cénica do “oprimido”. Para os defensores do multiculturalismo, a acumulação de riqueza e o prodigioso aumento de bem-estar conseguido pelas democracias liberais são um mito capitalista, uma fachada ideológica sob a qual a modernidade pretende esconder a sua pecaminosa história de exploração e imperialismo, de opressão sexual e racial.

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