Natal, consumo e felicidade

Artigo publicado na revista Dia D de 5 de Janeiro de 2007.

Todos os anos na época natalícia, aparecem na imprensa artigos que alertam contra o materialismo e consumismo em que se transformou o Natal dos tempos modernos. Não pretendo negar as origens e o significado que para muitos esta época assume. Apenas contradizer a visão negativa que muitos (nem sempre por razões puramente religiosas) têm do tradicional período de compras.

As empresas são frequentemente acusadas de serem as grandes culpadas pela febre consumista ao induzirem nas pessoas necessidades artificiais e por prometerem que a felicidade se encontra no centro comercial mais próximo. Não nego que alguns produtos são apresentados de forma algo exagerada (e por vezes bastante questionável). A verdade é que as empresas apenas procuram ir de encontro às necessidades do seu mercado potencial. As decisões de compra são voluntárias e por muito agressivas que sejam as técnicas de venda utilizadas, é o consumidor que, em última análise, tem poder de decisão.

A miríade de produtos que enche as lojas é também um sinal bastante positivo. É um símbolo da complexidade e pujança das economias modernas que, ano após ano, competem para apresentar produtos novos e captar a preferência dos consumidores. Um pequeno esforço de memória permitir-nos-á identificar toda uma série de produtos e utensílios que no presente consideramos indispensáveis para amenizar as agruras da nossa existência. Recuemos alguns (poucos) anos. Quantos desses produtos e utensílios faziam parte do nosso quotidiano? Alguns deles eram considerados “artigos de luxo” e, como tal, inacessíveis aos comuns mortais, outros simplesmente não estavam disponíveis no mercado.

A generosidade característica da época natalícia (manifestada por exemplo na oferta de prendas) deve mais às características de uma economia de mercado do que ao Estado Social. A oferta voluntária decorre da existência de propriedade privada. Apenas podemos partilhar aquilo que é nosso e fazemo-lo de bom grado. Muitas das vezes nem esperamos qualquer reciprocidade da outra parte. No Estado Social a partilha é coerciva e a sua recusa implica multas ou mesmo penas de prisão. Não temos qualquer forma de controlar ou saber quem são os beneficiários e se eles são realmente merecedores do nosso sacrifício. E ao contrário das prendas natalícias indesejadas ou repetidas, não podemos reciclá-las como prendas para terceiros ou trocá-las na loja mais próxima.

Por certo, todos teremos ouvido contar pelos nossos pais ou avós relatos de Natais longínquos. A comparação da quantidade e qualidade das prendas constitui uma inegável prova do progresso económico e da melhoria das condições de vida. Não pretendo fazer comparações quanto à evolução dos “níveis de felicidade” que são difíceis de medir e bastante incertos (dado que dependem de variadíssimos factores a maior parte dos quais subjectivos ou desconhecidos) e do eterno estado de insatisfação característico do ser humano. Como referia um artigo na Economist de 19 de Dezembro: “O capitalismo pode melhorar o seu nível de vida. E deixa-o livre para ser infeliz como bem entender”.

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