Robespierre e a salvação da Terra

Artigo de Fernando Gabriel no Diário Económico (link não disponível)

No início do ano, a Comissão de Energia da Califórnia propôs uma medida inovadora: os aparelhos de ar condicionado das novas habitações seriam obrigados a dispor de um termóstato programável por controlo remoto. O objectivo era permitir aos burocratas ‘gerir’ a procura durante os picos de consumo de energia, impondo administrativamente a temperatura na casa de cada um. Perante o protesto geral, a obrigatoriedade foi substituída pela opcionalidade –por agora.

Propostas como esta, envolvendo um grau crescente de controlo político, são a resposta legislativa habitual às pressões de movimentos ecologistas que exigem do Estado ‘acção imediata’ contra as alterações climáticas. Esses grupos declaram-se adversários do capitalismo global e da democracia liberal mas, paradoxalmente, é aos mecanismos políticos democráticos que dirigem as suas exigências, formuladas numa linguagem imperativa de aparência ética, que sublinha a ‘imoralidade’ da inacção perante o ‘ecocídio’ do planeta –a mesma linguagem utilizada por Al Gore, quando compara os que minimizam o seu alarmismo ambientalista aos que ‘ignoraram o Holocausto’. O ecologismo radical não pretende que o Estado complemente o esforço privado de investigação de novas tecnologias capazes de tornar o consumo de energia menos agressivo para o ambiente: as reivindicações políticas que faz são impossíveis de satisfazer, mesmo por governos dispostos a tal.
O filósofo Slavoj Zizek propõe uma explicação interessante para esta dupla incongruência: a resistência anti-capitalista desses movimentos é uma forma de colaboracionismo. Numa simbiose hipócrita, os grupos extremistas funcionam como a ‘consciência moral’ do regime: enquanto dirigem ao Estado as suas exigências impraticáveis, o Estado pretende levá-las a sério e aumenta o controlo regulador sobre a sociedade. Evidentemente nenhum nível de controlo burocrático é susceptível de produzir a desejada utopia ambiental, mas o aparente fracasso do Estado permite o controlo social pretendido por burocratas e políticos e mantém a justificação existencial para os grupos radicais, que ‘denunciam a hipocrisia’ das democracias liberais.

 

A implosão do comunismo em simultâneo com o declínio ideológico do welfare state instalou a descrença na capacidade humana de decidir o curso da história através da acção colectiva. À esquerda e à direita, o capitalismo global e a democracia liberal –o seu complemento político– foram tomados como adquiridos. Zizek propõe uma alternativa aos órfãos ideológicos resultantes da desintegração da ‘grande narrativa’ socialista: a revolução ecológica. É o falso radicalismo dos movimentos anti-capitalistas que impede a acção necessária para evitar a catástrofe climática anunciada, argumenta Zizek, para quem transformar o ‘deserto do real’ exige a reinvenção do Terror –exige ‘repetir’ Marat e Robespierre, ou Lenine.

 

A reinvenção do terrorismo parte dum impulso voluntarista individual conducente à acção colectiva em larga escala capaz de superar os hábitos sociais. Os gestos quotidianos ‘amigos’ do ambiente, como a reciclagem do lixo, são inúteis. Na sua puerilidade comprometida falta-lhes a ousadia necessária: a revolução não será reciclada. Só a ‘justiça inflexível’ poderá atemorizar e derrotar o ‘inimigo capitalista’.

 

O que fazer? Exigir a imposição de uma norma mundial igualitária traduzida em limites drásticos ao consumo de energia e emissão de poluição. Essa norma terá de ser acompanhada pela disposição impiedosa a punir todos os potenciais infractores, não hesitando para tal em recorrer a toda a tecnologia de vigilância disponível e até a informadores que denunciem às autoridades os infractores (o bufo é um herói da revolução). O terrorismo é politicamente justificável: é a súbita ‘violência divina’ que salvará o planeta da catástrofe e anunciará o Novo Homem. Em 1794 o Terror exigia o trabalho incessante da guilhotina para cortar o pescoço ao ancien régime. Em 1918 Lenine usava o pelotão de fuzilamento para eliminar a oposição ao bolchevismo. Em 2008 o ambientalismo está na ordem do dia e Zizek invoca-o para cortar o pescoço ao capitalismo.

A boa notícia é que a leitura de Zizek permite perceber um dos paradoxos da política contemporânea: a relação simbiótica entre os movimentos anti-globalização e os governos das democracias liberais. A má notícia é que Zizek é portador de um arsenal retórico pronto a usar pelos que em nome da Terra ambicionam conquistar o Céu: a Revolução encontrou o seu novo Lúcifer.

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