As sombras

Aerigo de Fernando Gabriel no Díário Económico

Só entre Maio e Outubro de 2008 a riqueza global dos 25 russos mais ricos, de acordo com a lista da Forbes, caiu mais de 62%.

Há uma certa justiça poética intrínseca às grandes crises financeiras que raramente é apreciada. Considerem-se os efeitos da actual crise sobre a economia russa. Na década de 90, a apropriação pelos oligarcas das maiores empresas soviéticas a preços irrisórios foi ruinosa para o estado: a troco de um encaixe financeiro insignificante o Estado russo abdicou de receitas futuras fundamentais -um dos principais motivos do espectacular colapso financeiro de 1998. Uma década depois, sem a sombra protectora do poder, a história acerta contas com alguns dos maiores beneficiários: só entre Maio e Outubro de 2008 a riqueza global dos 25 russos mais ricos, de acordo com a lista da Forbes, caiu mais de 62%. A fortuna de Roman Abramovich encolheu de 22,6 mil milhões de dólares para uns ‘modestos’ 3,1 mil milhões. Outros oligarcas sofreram perdas da mesma ordem de grandeza, ou até maiores.

Putin e a clique de ex-agentes do KGB que assumiram o controlo da Rússia depois de Yeltsin também vivem tempos de expiação pela hubris política. A queda abrupta do preço do petróleo, de 147 dólares por barril em Julho de 2008 para os actuais 50 dólares, ameaça o equilíbrio orçamental russo, que depende crucialmente dos impostos sobre a exportação de gás e produtos petrolíferos. Preços do barril abaixo dos 70 dólares implicam ‘deficits’ orçamentais e limitam seriamente as políticas redistributivas que estão na base da estabilidade autocrática. O impacto da instabilidade financeira na economia russa é agravado pelas consequências da invasão militar da Geórgia, que provocou um movimento de fuga de capitais. Acentuado pela fragilidade do mercado financeiro interno e pela política de sobreavaliação do rublo, já custou mais de 25% das reservas russas de divisas -as terceiras maiores do mundo.

A situação económica sugere a possibilidade de uma crise política e alguns analistas avançam mesmo cenários de transformação estrutural do regime russo. No curto prazo a crise reduz a sombra política do prestígio de Putin, e permite perceber com mais clareza a forma como os novos donos do poder manipulam os recursos energéticos para proveito pessoal. Mas o efeito provável a longo prazo é precisamente o oposto: o reforço do poder autocrático do Kremlin.

Com o acesso ao crédito extremamente dificultado, às empresas em dificuldades resta o apoio financeiro do governo. Mas esse apoio significará um controlo político ainda maior sobre a actividade económica no futuro. A instabilidade social motivará também uma reacção de defesa do poder: os opositores de Putin sabem que não estão seguros em lado nenhum. A menos que os governos ocidentais encontrem subitamente a coragem que lhes tem faltado, as execuções extra-judiciais dos adversários políticos do Kremlin prosseguirão, com custos diplomáticos irrisórios e sem julgamento dos acusados, como o demonstra o caso de Litvinenko. Andrei Lugovoi, o presumível responsável pelo seu envenenamento, foi eleito deputado da Duma em 2007 e em Dezembro passado garantia que todos aqueles que prejudicam a Rússia devem ser eliminados. Os visados são pessoas como Karina Moskalenko, advogada de notórios opositores de Putin, como o oligarca Khodorkovsky, cuja liberdade condicional em 2008 foi negada a pretexto da sua recusa em assistir às aulas prisionais de corte e costura, ou o xadrezista Garry Kasparov. Em Outubro foi envenenada com mercúrio, colocado no seu automóvel. Sobreviveu: foi apenas um aviso.

Internamente, alterações legislativas recentes modificaram a definição e moldura penal do crime de traição de forma a incluir, com adequada interpretação, as acções de oposição política que os siloviki entendam convenientes. Os julgamentos dos acusados serão uma farsa. Alterações constitucionais alargam o mandato presidencial, possibilitando a permanência no cargo durante 12 anos e prenunciando o regresso de Putin à cadeira que controlou como uma sombra.

Vita Sackville-West, uma das amantes de Virginia Woolf, esteve apenas dois dias na Rússia, em 1926, no regresso de uma viagem ao Irão, onde visitou o seu marido Harold Nicolson, que integrava a legação diplomática britânica em Teerão. Apesar de estar mais interessada em plantas do que em homens, não lhe escapou o ambiente opressivo de Moscovo e resumiu o dilema trágico dos russos: conformar-se e viver, ou opor-se e morrer. A esmagadora maioria, então como agora, escolhe compreensivelmente a primeira opção. Não admira que se movam, como descreveu Vita, colados às paredes da capital. Como sombras.

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  • […] uma baixa na fascinante oligarquia financeira da nova Rússia. Já repararam que eles têm todos ligações ao antigo KGB? Share this:Gostar disto:GostoBe the first to like this post. By Miguel Noronha, […]

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