Um futuro

Artigo de Fernando Gabriel no Diário Económico

No palco, surge um sujeito de cara coberta por uma máscara, com as tranças e o chapéu negro característicos dos judeus ortodoxos.

Lê um comunicado, apelando à conversão de “todos os que o ouvem”. Exorta-os a juntarem-se ao “eixo do bem” e esclarece: ao “eixo americano-sionista”. Depois, faz a saudação nazi, sob o aplauso estrondoso de uma plateia ululante. Eis Dieudonné M’bala M’bala, num ‘sketch’ transmitido em Dezembro de 2003 pelo canal France 3.

Em 2009, Dieudonné apresenta-se como candidato nas eleições para o Parlamento Europeu, à frente de um partido que define como “anti-comunitarista” e “anti-sionista”. Dieudonné descreve os judeus como “negreiros reconvertidos à banca, ao espectáculo e, actualmente, à acção terrorista”, acusa-os de terem “fundado impérios sobre o tráfico de negros e a escravatura”e classifica o Holocausto como “pornografia memorial”. O seu partido congrega outras cabecinhas doentes, como o ex-comunista Alain Soral, que agora defende posições próximas das da Frente Nacional de Le Pen. Soral apresenta os sintomas clássicos dos crentes na tese da conspiração global do sionismo, que classifica como uma “psicopatologia”. Se não fosse pela absoluta ausência de base legal, a presidência francesa teria exigido a proibição da candidatura. Seria um enorme erro político: Dieudonné e a sua pandilha de tontos interpretariam a proibição como o suplício dos justos e a prova definitiva da conspiração sionista.

Parte do insultos que Dieudonné dirige aos judeus, como as acusações de esclavagismo, são ridículas e irónicas: se ainda há negreiros, eles são árabes. Num documentário intitulado Destins Clandestins, o jornalista Grégoire Deniau e o fotógrafo Olivier Jobard mostraram as condições degradantes impostas pelos traficantes norte-africanos aos imigrantes negros que tentam entrar clandestinamente na UE. Mas a mistura de anti-semitismo e negação do Holocausto que define o programa do partido é partilhada pela maioria da população islâmica europeia: por exemplo, no Reino Unido apenas 29% dos muçulmanos aceitam o Holocausto como um facto histórico.

As projecções demográficas indicam que nas próximas décadas existirão alterações profundas na composição da população europeia, com os efeitos conjugados do envelhecimento e da duplicação da população islâmica residente na Europa, de 20 para 40 milhões em 2025. O resultado será o alargamento do eleitorado sectário e largamente imune à argumentação racional, que fornecerá a base ideal para a implantação de partidos extremistas e ideologicamente promíscuos. A candidatura de Dieudonné é o esboço de um futuro sinistro, uma sombra projectada sobre uma Europa esclerótica e dissociada da sua história e civilização

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