Uma ideia de história

Artigo de Fernando Gabriel no Diário Económico

O que poderá tornar uma série televisiva num objecto de controvérsia sem sequer terem começado as filmagens? A resposta concisa é: JFK.

Assim que se soube que Joel Surnow, o criador a série televisiva “24”, tencionava filmar uma mini-série sobre a vida de John F. Kennedy, imediatamente algumas consciências vigilantes se auto-proclamaram guardiães da verdade histórica e acusaram os produtores da série de “revisionismo”. Há até uma petição online com o democraticíssimo propósito de impedir o History Channel de exibir a heresia.

Ignorando o absurdo de tomar a generalidade dos conteúdos do History Channel por historiografia, pelo alarme causado supus que a série se propunha investigar os recantos obscuros da presidência Kennedy, a começar pelas suspeitas de fraude eleitoral em estados decisivos, como o Illinois (numa secção de voto em Chicago com apenas 22 eleitores, JFK conseguiu o notável resultado de 74 votos) ou o Texas, onde vários juízes eleitorais anularam mais de 40% dos votos, com justificações idênticas às invocadas na Florida em 2000. Ou talvez os autores da série pretendessem abordar as alegações feitas, entre outros, por Benjamin C. Bradlee e Victor Lasky, de que o escândalo de Watergate teve um precedente com John e Robert Kennedy: terão ordenado escutas ilegais a jornalistas e a diversas individualidades, incluindo Martin Luther King, e utilizado os serviços de auditoria fiscal para aceder a declarações de rendimentos de opositores políticos.

Puro engano. Os preventivamente indignados alegam que o produtor pretende transpor a sublime porta que separa a liberdade da licenciosidade na descrição da vida sexual de Kennedy e acrescentam umas minudências avulsas não conformes à história “tal como aconteceu”. Isto parece-lhes suficiente para exigirem ao History Channel que não exiba a série. É o mesmo canal que exibiu recentemente “The People Speak”, uma adaptação da narrativa marxista da história americana escrita por Howard Zinn. Não houve notícia de abaixo-assinados e ninguém tentou impedir a exibição. Ou a patrulha estava distraída, ou não vê inconveniente em confundir propaganda com historiografia, desde que promova a sua agenda ideológica.

A acusação de “revisionismo” é um pretexto frequente para legitimar a tutela política da história. Recentemente, o presidente russo e o primeiro-ministro israelita pronunciaram-se contra os “abusos de reinterpretação” da história da II Guerra Mundial. Aos russos desagrada a nova historiografia crítica proveniente dos países de leste que ocuparam e governaram por proxies ditatoriais; aos israelitas interessa preservar o monopólio do horror associado ao Holocausto. Sucede que toda a história é reinterpretação crítica, sempre em busca de uma maior coerência: a convicção de que existe um passado objectivo cuja “recuperação” é possível e compete ao historiador é um erro neo-positivista, que possibilita a subordinação da história às conveniências políticas. Aceitar que, em nome da “autenticidade” interpretativa, se silencie a voz crítica da história, é aceitar uma forma subtil mas essencial de empobrecimento civilizacional.

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