London Calling

Artigo de Fernando Gabriel no Diário Económico

Encontrar o único exemplar de um poema de Dylan Thomas num penico seria inesperado para qualquer pessoa, excepto para Meary Tambimuttu, aka Tambi, que usava o penico como arquivo literário.

Através da editora Poetry London publicou mais de 60 livros de Dylan Thomas, Lawrence Durrell e outros, alguns ilustrados por Lucian Freud. Tambi inaugura a extensa galeria de personagens de London Calling (Atlantic Books, 2010) um livro cujo autor Barry Miles apresenta como uma história da contra-cultura de Londres no pós-guerra. Não é: não passa de uma colecção de pequenas histórias e grandes disparates, por um ‘engagé’ em algo cuja identidade histórica lhe escapa e relativamente à qual não tem o menor distanciamento ou capacidade crítica, com a consequente ausência de reflexão sobre os testemunhos do passado evocado, quer se trate de escrita, arte ou música, em contraste com a minúcia descritiva dedicada a cada dejecção ou acto bestial cometido por infinitas nulidades.

Não obstante, a questão “o que é a contra-cultura?” necessita de resposta porque esta é politicamente relevante. Definindo-se por oposição, o “contra” opõe-se à cultura ocidental, à riqueza intelectual acumulada ao longo de milénios, através da reflexão crítica sobre o significado e aspirações da Cristandade. O primeiro alvo da contra-cultura é o conjunto de práticas que conferem inteligibilidade à vida social. A homossexualidade, um ‘nécessaire’ contra-cultural, torna-se num instrumento de destruição social a partir do pressuposto de que o “género” é uma construção política “opressora”, o que permite defender o preconceito ‘gay’ como um acto de “libertação”. O segundo alvo contra-cultural é o valor e significado dos activos da arte, da música e da literatura -a abolição do objecto de arte, como fizeram Gilbert & George, é o acto contra-cultural limite. O movimento da “arte auto-destrutiva” é elucidativo desta disposição: a designação identifica uma colecção de perturbados mentais como John Latham, cuja “arte” consistia em queimar livros em público. Gustav Metzger, um refugiado nazi, teorizou esta e outras proezas como “uma bomba ao retardador colocada em Bond Street”. Só a estupidez impede Metzger de compreender a ironia histórica e a omissão narrativa dos terroristas do IRA, que se notabilizaram nesta prática contra-cultural, é uma injustiça.

O derradeiro alvo da contra-cultura é a civilização, as suas instituições legais, educacionais e tecnológicas. Como recordava Hannah Arendt, a natureza é um movimento perpétuo de crescimento e decadência, enquanto que a civilização é o resultado do esforço humano para limitar os efeitos corrosivos dessa decadência. Uma das perversidades da modernidade reside no uso da liberdade humana para acelerar a decadência natural; neste sentido, a artificialidade da contra-cultura constitui-se como um aliado paradoxal da natureza. Numa passagem particularmente absurda, o escritor J. G. Ballard é alistado como um membro da contra-cultura. Sucede que a obra de Ballard é um exemplo de consciência da regressão civilizacional através de processos com origem humana, o que faz dele um dos mais poderosos críticos da ‘malaise de vivre’ contemporânea agravada pela contra-cultura. A importância política da contra-cultura decorre deste ataque total ao passado e ao futuro: pela primeira vez na história, um grupo social ausentou-se por completo do sentido trágico da existência humana. Esta demissão existencial democratizou-se no mundo mágico contemporâneo e combatê-la é o maior desafio enfrentado pelo Ocidente.

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