A Batalha de Inglaterra

Artigo de Fernando Gabriel no Diário Económico

A um mês das eleições gerais britânicas, eleitores e observadores mais ou menos comprometidos pretendem saber o que pensam os candidatos a primeiro-ministro: David Cameron e Gordon Brown.

Cameron, impressionado pela campanha de Obama, decidiu abrir as portas da sua alma, num manifesto publicado pelo Telegraph na sexta-feira passada. Já se sabia que Cameron não era como a raposa do aforismo de Arquíloco, glosado por Isaiah Berlin (‘a fox knows many things, but the hedgehog knows one big thing’) mas a superficialidade do manifesto poderá ter decepcionado quem esperava uma apologia convincente da “grande ideia” que fará dele um ouriço na recta final de uma caminhada vitoriosa até Downing Street. Cameron confessa que estava mais interessado em desporto e “miúdas” e pensava pouco em política. Subitamente num Verão passado, uma viagem à URSS despertou nele um sentido ético e uma aversão profunda à burocracia. Era o embrião da Big Society a “grande ideia” de Cameron: um programa devolutivo contra o consenso político e culturalmente destrutivo que uniu o Thatcherismo ao New Labour, numa mistura que só aparentemente é incongruente de individualismo radical e autoritarismo estatal. Os conservadores já estiveram pior servidos.

Ao contrário de Cameron, a visão política da URSS deixou Brown de tal modo enternecido que continua a esforçar-se por criar a União das Repúblicas Socialistas Britânicas. Para salvar o Big Government da fúria eleitoral dos desiludidos, vale tudo, até comparar a economia britânica ao lesionado Wayne Rooney: Brown imagina que o seu keynesianismo destruidor da capacidade de criação de riqueza futura é a muleta necessária a uma economia “lesionada”. Nada de retirar a muleta muito cedo, aconselha. Claro que a comparação só será eficaz se os eleitores esquecerem que foram os Trabalhistas que destruíram a economia sob o peso do seu estatismo: entre 1999 e 2009, a despesa pública passou de 36,3% para 47,5% do PIB; em 2010 atingirá os 50% e se a tendência actual se mantiver, irá ultrapassar os 80% em 2015. Se Rooney tiver de jogar com metade da equipa às cavalitas, é bem capaz de se lesionar e se lhe explicarem que no futuro terá de carregar nove colegas no lombo fará o mesmo que os mais capazes e empreendedores: vai-se embora.

Cameron é a face do novo conservadorismo cívico, teorizado por David Willetts e Phillip Blond. Reconhece o efeito corrosivo do hedonismo da contra-cultura sobre a família e sabe que a transformação da polis num enorme falanstério prejudicou sobretudo os mais desfavorecidos; sabe que foi em nome do relativismo cultural que se destruíram as instituições intermédias, e que sobre essas ruínas Thatcher e Blair ergueram o Behemot do estatismo autoritário; sabe que o assistencialismo público auto-perpetua-se, mantendo os problemas sociais que se propõe resolver. Em suma: sabe que enfrenta uma sociedade desmoralizada e descapitalizada cuja reconstrução exige um amplo programa devolutivo. No entanto, se Cameron não for capaz de convencer os eleitores que o seu programa é muito diferente de um Thatcherismo recauchutado, perderá a batalha eleitoral. Nas margens, estão partidos como o BNP, à espera de conquistar pelo voto o que os seus antepassados não conseguiram pela força. Se o BNP emergir como partido charneira, estou certo que Brown dirá que foi um auto-golo -de Rooney.

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