De Cannes a Harare

Artigo de Fernado Gabriel no Diáro Económico

Se Napoleão e Saint-Simon regressassem ao mundo, ficariam agradavelmente surpreendidos com o estado de coisas.

Os países da União Europeia preparam-se para aceitar docilmente os “laços indissolúveis do federalismo”, citando o primeiro, para realizar uma variante do plano de governação do segundo, sob os auspícios de um directório tecnocrático. Entretanto em Cannes, a vanguarda cultural europeia aplaude os delírios cinematográficos de ‘rigueur’: visões crípticas do socialismo por Godard, a crise histérica de uma mulher obcecada com Berlusconi, ou o mais recente ‘agitprop’ de Oliver Stone. Tudo isto, duas décadas após a derrocada geopolítica do socialismo.

O grande salto em frente europeu fica para ocasião futura e, em vez de perder tempo com as nulidades cinematográficas de Cannes, prefiro dar atenção ao notável documentário “Mugabe and the White African”, recentemente editado e que não teve estreia comercial na maioria dos países europeus. É pena, não só porque venceu os British Independent Film Awards de 2009, mas também porque é muito instrutivo sobre o carácter político dos movimentos socialistas africanos ditos de “libertação”.

Não há modo del filmar a violência com que Mugabe e a ZANU-PF expropriaram, assassinaram ou expulsaram mais de 4000 agricultores brancos do Zimbabwe, sob o pretexto da “reforma agrária”. Não há tradução visual para a miséria daí resultante, que reduziu um país com vantagem comparativa na agricultura a um deserto estéril, onde a esperança de vida é de 44 anos (43 para as mulheres) um terço da população passa fome, 1,3 milhões sofrem de SIDA e pelo menos 3 milhões refugiaram-se na África do Sul. Os autores do documentário resolvem o dilema com uma simplicidade magistral: sob o fundo da tragédia, centram-se na família de Mike Campbell, um agricultor que adquiriu uma quinta e que depois de 20 anos a pagar as dívidas contraídas se recusou a aceitar o despotismo do confisco. Apesar do terror constante, que culminou no rapto e espancamento brutal da sua família, Campbell contestou judicialmente a expropriação e foi o primeiro africano a ver os seus direitos de propriedade reafirmados por um tribunal internacional.

A história da destruição do Zimbabwe soa distante no grau de criminalização do Estado e irreal na enormidade do terrorismo racista de Mugabe, o auto-proclamado “Hitler negro”. Importa por isso recordar alguns dos elementos fundamentais desse processo: o ataque político aos financiadores internacionais, acusando o FMI de “organizar uma conspiração internacional”, evidentemente branca, que limitou o acesso aos mercados de capitais quando estes eram vitais; a cumplicidade política do ANC sul-africano, fundada no medo de que a destituição democrática de um movimento de “libertação” lhes pudesse vir a retirar o controlo político, que presumem permanente; a cumplicidade activa do poder judiciário na destruição do estado de direito, com inúmeros magis- trados a integrarem a lista de “beneficiários” das expropriações; e, finalmente, o desprezo sistemático de Mugabe e dos seus cúmplices pelos resultados de eleições e referendos. Alguns destes factores sugerem que as distâncias política e espacial ao Zimbabwe não são equivalentes e que o exemplo de Mike Campbell poderá ser inspirador para outros homens, noutras circunstâncias. Um cínico encontraria facilmente razões para a ausência de interesse europeu na exibição comercial do documentário.

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