A Guerra Mundial

Em 1985, o então cardeal Ratzinger interrogava-se sobre o fascínio do futebol.

Contra os que não vêem mais do que uma reencenação do circo decadente de Roma, Ratzinger argumentou que o futebol contém os elementos de uma prática complexa…

Em 1985, o então cardeal Ratzinger interrogava-se sobre o fascínio do futebol. Contra os que não vêem mais do que uma reencenação do circo decadente de Roma, Ratzinger argumentou que o futebol contém os elementos de uma prática complexa: o auto-domínio do jogador requer disciplina e desse auto-domínio decorre uma superior autonomia individual, mas a obtenção da excelência exige a cooperação, pelo que o sucesso individual depende do sucesso colectivo. Outros não vêem o jogo como um exercício de virtude neo-aristotélica: vêem-no como a manifestação da virtude maquiavélica, onde o “engenho” aliado ao “espírito”, a disponibilidade para o combate, confere a vitória à equipa favorecida pela fortuna. O sortilégio do futebol é vitória ou derrota, poder ou submissão. É uma metonímia da guerra, onde a cada 4 anos, os guerreiros são convocados para o grande torneio, a guerra mundial que no final irá entronizar os favoritos dos deuses.

Se o futebol é a reencenação da guerra, então a ambiguidade vocabular obscurece a verdadeira natureza desta “guerra” mundial. Enquanto o papa João Paulo II, que nunca percebeu grande coisa da cidade dos homens, instava Joseph Blatter a usar o imenso poder do futebol para promover valores morais, o cardeal Ratzinger advertia para o risco de perversão do jogo por aquilo a que chamou “a sombria seriedade do dinheiro”. Blatter compreendeu que a cruzada moral e o discurso missionário, com objectivos vagos e demagógicos, como a promoção da “igualdade”, ou a luta contra o “racismo” eram o disfarce ideal para transformar a maior competição mundial de futebol numa guerra de contratos e de patrocinadores. Hoje, a excelência do jogo tornou-se secundária e adensam-se as suspeitas de corrupção com epicentro na FIFA e nos seus dirigentes.

Um dos jornalistas que procura contrariar a opacidade dos negócios da FIFA é Andrew Jennings. O seu livro Foul! (Londres, 2006) é um relato arrasador e um compêndio de escândalos: as irregularidades na eleição de Blatter; os negócios de Jack Warner, o vice-presidente da FIFA e presidente da CONCACAF, que a Ernst & Young estima que tenha obtido um lucro de meio milhão de libras só com a revenda de bilhetes no Mundial de 2006; a ‘débâcle’ da ISL, a companhia acusada de ter conseguido os direitos televisivos dos mundiais através de subornos -mais de 100 milhões de dólares na década de 90, segundo Jennings.

Hoje uma nova companhia ocupa as instalações da ISL: a Infront Sports & Media, detentora de direitos televisivos semelhantes. Por coincidência, o CEO da Infront é Philippe Blatter, sobrinho do presidente da FIFA. Na mesma localidade fica a sede da Match Event Services, que detém um quasi-monopólio das acomodações hoteleiras de topo na África do Sul durante o torneio de 2010. O ‘mark-up’ sobre o preço pago aos hoteleiros vai de 30 a 1000%, no caso de algumas instalações do parque nacional Kruger. Mesmo os crentes no efeito miraculoso do “multiplicador keynesiano”, que adoram o evento pelo suposto impacte no produto das economias, reconhecem que, graças à política de preços da Match, metade dos turistas previstos ficaram em casa e como a renda económica associada aos alojamentos será repatriada para os países dos accionistas, o impacte do mundial sobre o crescimento será quase nulo. Quando as cornetas se calarem, a África do Sul ficará com uma colecção de magníficas inutilidades nas mãos de um sector público incompetente e o grande vencedor do mundial de 2010 será, incontestavelmente, a FIFA e o grupo restrito de parceiros de negócios do sr. Blatter. É deles o reino da bola.

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