Especulação e interesse

Artigo de Fernando Gabriel no Diário Económico

Por que razão o preço do petróleo apresentou uma enorme volatilidade ao longo do último ano? Gordon Brown e Nicholas Sarkozy não têm dúvidas: a culpa é dos especuladores.

Num artigo de opinião assinado conjuntamente garantem que a volatilidade do preço do petróleo desafia “as regras aceites da Economia”. Para resolver esta contrariedade propõem um maior controlo político dos preços e dos mercados futuros, limitando os montantes de investimento.

Os economistas não partilham as “certezas” de Sarkozy e Brown: em “Three Epochs of Oil” Eyal Dvir e Kenneth Rogoff analisam uma série longa de preços do petróleo, de 1861 a 2008, e distinguem dois períodos, 1861-1878 e 1972-2008, onde o preço médio se manteve elevado de forma persistente e simultaneamente apresentou uma enorme volatilidade. Estes períodos apresentam semelhanças históricas: um forte crescimento económico que aumentou a procura de forma sustentada e uma incerteza acrescida quanto à capacidade de resposta da oferta, provocada pela existência de elementos chave nos mercados com a capacidade de restringir o acesso dos consumidores. Até 1878, esse elemento era o monopólio de transporte ferroviário nos EUA; depois de 1972 foi o cartel da OPEP. Dvir e Rogoff mostram ainda que quando aumenta a incerteza e a tendência do preço passa de determinística a estocástica, a acumulação de reservas contribui para a volatilidade do preço.

Estes resultados fornecem uma explicação para a subida do preço do petróleo em simultâneo com o aumento da volatilidade: a OPEP foi bem sucedida na redução da oferta e, ao reduzir o investimento, aumentou a incerteza estratégica. Além disso, ao longo dos últimos meses diversos países, designadamente a China, aumentaram as suas reservas. Se a evolução dos preços e das posições dos fundos de investimento exibem uma correlação positiva, isso não significa que os “especuladores” sejam os causadores do movimento: significa apenas que são economicamente racionais. A pressão política para a limitação das acções deste tipo de investidores compreende-se melhor reparando nos lucros substanciais que companhias comerciais como a BP ou a Shell obtêm neste tipo de transacções. Ao designarem os investidores não comerciais como “especuladores”, estas companhias aumentam a pressão política para a limitação das respectivas posições, reduzindo a concorrência num mercado extremamente lucrativo.

O ódio ao “especulador” tem raízes históricas profundas, no preconceito medieval contra a usura e na crítica marxista ao capital e ao lucro. O fundamento da suspeição é a suposta imoralidade do “dinheiro que gera dinheiro” e as transacções nos mercados futuros, onde a informação é vital, tornam a sugestão de parasitismo mais persuasiva. A relação entre mercados e moralidade é bastante mais complexa do que as analogias marxistas sugerem e os efeitos da especulação podem ser difíceis de avaliar, mas um oportunista é relativamente fácil de identificar.

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