Depois de Sean

Artigo de Fernando Gabriel no Diário Económico

Há alguns anos deixei de ver os canais da televisão generalista portuguesa. Troquei, com benefícios inequívocos, a dose nocturna de propaganda e servilismo por filmes como “Following Sean” (2005) exibido recentemente pelo canal Arte.

Trata-se de um documentário realizado por Ralph Arlyck, que regressou a São Francisco trinta anos depois de aí ter filmado Sean, uma criança de quatro anos a viver numa casa de Haight-Ashbury que também servia de abrigo a ‘speed freaks’ e aos participantes ocasionais no casamento “aberto” dos pais. Sean não distinguia os dias da semana, andava descalço e admitia com naturalidade mascar e fumar erva. Truffaut declarou-o o filho perfeito da contra-cultura. O filme, mais do que a satisfação da curiosidade sobre a vida ulterior da criança-selvagem, é uma reflexão melancólica, por vezes irónica, sobre as consequências políticas da revolução dos anos 60, do projecto de destruição da civilização em nome do retorno a um comunismo mítico, julgado mais apropriado para os filhos de Adão do que a sociedade comercial.

Uma das ironias do documentário resulta do contraponto entre as vidas de Sean e de Arlyck, que mostra como a reencenação da revolução para acabar com as divisões produz, sem surpresas, novas e mais iníquas divisões. Sean, oriundo da chamada “classe trabalhadora”, não conseguiu chegar à universidade: é electricista e Debbie, a sua irmã mais velha, é empregada de limpeza. Já Elisabeth, a mulher de Arlyck, conseguiu uma posição académica assim que o casal abandonou a vida ‘hippie’. Elisabeth pertence à elite intelectual que se entrincheirou na generalidade das universidades americanas e cuja capacidade formativa foi destruindo em nome do “progresso”, controlando politicamente o acesso e os currículos.

Um estudo recente de dois sociólogos de Princeton encontrou evidência estatística de discriminação no acesso universitário [1]: além do injustificável enviesamento favorável aos candidatos das populações ditas étnicas, um estudante branco de classe média ou alta tem uma probabilidade de admissão 3 vezes maior do que um estudante branco de origens humildes com qualificações idênticas. A elite de esquerda desconfia dos brancos pobres, do seu tradicionalismo e da resistência que opõem à agenda progressista e os descamisados como Sean, que por infortúnio ou incapacidade ficaram pelo caminho, também servem os desígnios ideológicos da esquerda se depositarem a culpa do seu insucesso aos pés do capitalismo.

Sean está destinado a suportar as adversidades do progressismo desde o berço até à cova. No futuro, aguarda-o um substancial dos impostos, necessários para suportar os compromissos de despesa não cobertos por activos da segurança social californiana, que só nos três maiores fundos públicos já atingem 500 mil milhões de dólares [2]. Os aumentos das pensões aprovados sob a pressão da rapacidade sindical exigiam uma capitalização bolsista surreal [3] para manter o equilíbrio actuarial: as “previsões” de 1999 assumiam que o índice Dow Jones atingiria os 25000 pontos em 2009. Está nos 10500.

Numa sequência próxima do final do filme, Arlyck e Sean filmam-se a si próprios em silêncio, no interposto vidro do carro, que, como na canção dos GNR, lhes devolve a imagem sem reflectir sobre o vazio incomunicante da desilusão utópica. Depois seguem por uma auto-estrada que atravessa o deserto, ladeada por fileiras de enormes ventoinhas, a anunciarem a aridez de um futuro de submissão a novas utopias, agora ecológicas. O futuro, afinal, que aguarda os que vierem depois de Sean.

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