A Guerra “Humanitária” – uma perspectiva histórica

Comentário de um leitor a este post d’O Insurgente

A “guerra humanitária” antecede Wilson e a idade moderna. Kant refere-se jocosamente a Grócio, Samuel Pufendorf e a outros teóricos da guerra “por boas razões”. Aliás, os proponentes das intervenções humanitárias recorrem frequentemente a Grócio (que fez a apologia da guerra contra os Portugueses em nome da picaresca abstracção do direito ao comércio internacional). Alberico Gentili defendeu a justeza da guerra travada contra aqueles que violassem “a lei comum da humanidade” uns séculos antes de Bonaparte ou Wilson. E os Utópicos de More, embora detestassem a guerra, achavam por bem travá-la em nome dos grandes princípios – “out of good nature or in compassion, assist an oppressed nation in shaking off the yoke of tyranny”.

Por exemplo, as guerras feitas pelos países europeus no processo de colonização eram frequentemente justificadas em nome da libertação dos selvagens dos abusos cometidos pelos tiranetes locais. Tal como, mais tarde, as acções militares conduzidas pelo Império Britânico contra o tráfico de escravos.

E antes disso tudo, Inocêncio VI teorizou sobre o direito e o dever que tinha de decretar a guerra aos príncipes muçulmanos que não respeitassem os “direitos naturais” (entenda-se que definidos por ele, o príncipe da Cristandade) dos seus súbditos (se os neoconservadores são discípulos de Wilson e este de Napoleão, então o córsico terá feito a aprendizagem com este).

A tecnologia e a demografia tornaram as guerras da idade moderna mais mortíferas. Há mais pessoas e mais e melhores meios para as liquidar rapidamente. Mas a dicotomia enunciada é falsa; tal como a tese sugerida de que a barbárie da guerra se acentuou com o advento dos estados constitucionais modernos. Quem julga encontrar esse tipo de correlações está a ceder à tentação de encontrar ordem no caos.

A Guerra dos Trinta Anos – feita em nome de grandes ideais religiosos – exterminou 1/4 da população alemã e regiões inteiras foram varridas do mapa. A guerra da revolta de Taiping – feita em nome de grandes ideais políticos, do progresso social (similar às guerras napoleónicas) – matou 30 milhões de pessoas. Já as invasões mongóis foram eminentemente territoriais e nem por isso deixaram de matar 60 milhões de pessoas, uma percentagem não negligenciável da população mundial da altura. A guerra Atenas-Melos foi feita por causa de uns tributos fiscais mas isso não impediu que os Atenienses conduzissem e concretizassem uma guerra de extermínio. Não se ficaram pela mudança de regime, a cidade-estado de Melos deixou de existir (bem como os seus cidadãos enquanto tal). E David conduziu uma bem-sucedida guerra de extermínio contra os Amalequitas, uma “nação iníqua”. Vai, pois, agora e fere a Amaleque, e o destrói totalmente com tudo o que tiver; não o poupes, porém matarás homens e mulheres, meninos e crianças de peito, bois e ovelhas, camelos e jumentos. Quem pensa que a guerra total é um fenómeno democrático leu muito pouco. Nem sequer a Bíblia.

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