Aquele que sofre por todos nós

Excerto de “Os Dias Contados” de Alberto Gonçalves (Diário de Notícias)

Coitado do eng. Sócrates. A dra. Ana Gomes, conhecida pelo fervor humanitário, já avisou ser “tempo de todos os socialistas se unirem, estoicamente, em apoio ao Primeiro Ministro (sic)”. Porquê? Por causa da “agrura de ter de decretar medidas durissimas (sic) e de arrostar com incompreensão e impopularidade”. E o dr. Almeida Santos, embora com menos erros ortográficos, vai mais longe ao pedir o contributo de todos os portugueses: “O povo”, proclamou a eminência, “tem que sofrer as crises como o Governo as sofre”.

É o mínimo. Ao contrário do que alguns sugerem, não são os cidadãos anónimos as únicas vítimas da austeridade que o eng. Sócrates e os seus subordinados reforçam de quatro em quatro meses. É verdade que uma parcela crescente da população está desempregada, e é verdade que uma parcela crescente dos rendimentos da população ainda empregada acaba removida pelo Estado. Mas esses ligeiros percalços não se comparam à angústia de quem os anuncia em horário nobre televisivo. Impor sacrifícios aos outros é uma tarefa dolorosa, e dado que o eng. Sócrates e o dr. Teixeira dos Santos começam a repeti-la com regularidade, a dor que sentem deve roçar o insuportável.

Principalmente se não se tem culpa daquilo que motivou os sacrifícios. E o Governo, conforme a dra. Ana Gomes explica com a lucidez habitual, não tem culpa nenhuma da situação actual: a culpa é da “selvajaria da lei dos mercados” e de uma União Europeia “dominada pela direita neo-liberal”.

Claro que sim. A mim só me resta perceber quando é que a “direita neo-liberal” tomou conta da UE e, para lá do natural horror dos investidores internacionais, qual o nexo entre a “selvajaria” dos “mercados” e o desnorte das contas caseiras. Talvez isso inocente um ministro das Finanças que, à primeira e à segunda vistas, é um desastre financeiro e, a julgar pelos truques, revisões, subterfúgios e ocultações, uma tristeza ética. E talvez isso legitime um primeiro-ministro que, de atoarda em atoarda, aterrou na crise agora, embora prometa há dois anos combater a crise com as medidas opostas às medidas agora prometidas para combater a crise.

Na misteriosa retórica governamental, a crise tanto se resolve através do esbanjamento quanto através da contenção. Às vezes através de ambos em simultâneo. A diferença é que, fora da retórica, apenas o esbanjamento é autêntico. O modo como lida com a contenção aproxima o eng. Sócrates de George Costanza, de Seinfeld, cujo sonho consistia em fingir ser arquitecto – e não em sê-lo de facto. O sonho do eng. Sócrates é fingir que corta na despesa pública. E cortar realmente nos ganhos privados.

Sucede que, iluminado por convicções que mudam a cada instante, o eng. Sócrates decreta essas coisas com um, cito, “aperto no coração”. Donde seria de péssimo gosto que a plebe colocasse as suas ínfimas agruras à frente dos problemas cardíacos de Sua Excelência. A hora não é de resmungos: é de empatia para com um estadista que, patriótica e condoidamente, resignou-se a gastar o nosso dinheiro. Não custa nada, excepto dinheiro. Vamos todos, todos, todos apoiar estoicamente o eng. Sócrates, partilhar um pedacinho do seu sofrimento e, na impossibilidade de que termine o mandato com dignidade, rezar para que o termine depressa.

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