Mitos da Iª Guerra Mundial

“A Grande Guerra” de Fernando Gabril no Diário Económico (e em versão integral no Gerontion)

Na semana passada os jornais noticiaram o “fim” da I Grande Guerra, com o pagamento pela Alemanha da última parcela das reparações de guerra. Referindo-se ao assunto, o Daily Telegraph resumiu de forma clara um mito duradouro: as reparações de guerra impostas à Alemanha constituíram um fardo “insuportável”, cujas consequências económicas “determinaram” a ascensão de Hitler e a eclosão da II Guerra Mundial. Este mito concorreu para a entronização intelectual de Keynes, promovida por uma historiografia ideológica que o representou como o único a antecipar as consequências desastrosas de uma paz que exigiu à Alemanha reparações “impossíveis” de pagar e “humilhantes”.

A aproximação mais aceitável à verdade histórica sugere uma Alemanha depois do armistício muito diferente, em particular no que respeita à relação entre as políticas macroeconómicas prosseguidas no pós-guerra e as reparações a pagar. Nem o montante de reparações provocou uma dívida, pública e externa, insustentável, nem as reparações foram a principal causa da hiper-inflação alemã. Em 1921, a dívida alemã em % do PIB era inferior à britânica e as reparações pagas nunca ultrapassaram os 8,3% do rendimento nacional –muito distantes das previsões de 50% propostas pelo “clarividente” Keynes. Aliás, os desequilíbrios macroeconómicos germânicos foram provocados pela estratégia defendida por Keynes: desvalorizar a moeda para aumentar as exportações e gerar receitas para pagar a dívida externa; aumentar a despesa pública para estimular a inflação e reduzir o valor real da dívida interna. Como os parceiros comerciais alemães passavam por um período de deflação, as alterações dos preços relativos anularam o efeito da desvalorização nominal sobre a competitividade e a hiper-inflação destruiu a moeda. Hitler não perdeu tempo a assegurar aos alemães que o partido nazi acabaria com a “roubalheira da inflação”. Foram as desastrosas políticas recomendadas por Keynes e não as reparações, cujo valor real acabou por ser irrisório, as responsáveis pela grave crise económica do pós-guerra, onde floresceu a demagogia nacional socialista.(…)

A narrativa repetida pelos jornais a propósito das consequências da paz de Versalhes contribui para perpetuar uma imagem distorcida do keynesianismo, que muito antes do advento do “Estado social” já causava estragos assinaláveis. Se a guerra mundial de 1914-18 está encerrada, a “grande guerra” para desentranhar a influência intelectual de Keynes das sociedades ocidentais ainda mal começou

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