A crise dentro da crise

Excerto de “Os Dias Contados” de Alberto Gonçalves (Diário de Notícias)

É apreciável a resistência dos que, numa luta sem tréguas contra a realidade, continuam a discutir a nossa crise como se a nossa crise resultasse do capitalismo “selvagem”, da “desregulação” (sic) dos mercados, dos especuladores, do “egoísmo” da sra. Merkel, da União Europeia, dos EUA, do FMI, da banca, das agências de rating e, se não estou em erro, do Grupo de Cantares de Manhouce.

Nas cabecinhas voltadas à esquerda, aliás maioritárias, as monstruosas entidades acima conspiram para arrasar Portugal e o seu encantador “Estado social”. Presumo que será escusado explicar-lhes que foi o “Estado social”, ou o arremedo inevitavelmente corrupto que por cá se construiu, o responsável pelo buraco em que nos metemos. Em Julho de 2009, um bando de economistas dessa curiosa escola produziu um abaixo-assinado a subscrever a “aposta” do Governo no “investimento” público. E isso numa altura em que toda a gente que queria perceber já tinha percebido que é na arbitrariedade com que uns poucos consomem o dinheiro de todos que reside o maior drama nacional. A crise é a crise do “Estado social”.

Agora, ainda que numa escala pequenina e burlesca, temos também a crise dos seus defensores. Embora se mantenha nas causas, a unanimidade que existia quanto ao remédio sumiu. De um lado, estão os “lealistas”, no sentido de que são leais ao eng. Sócrates e às suas cambalhotas. Batem-se hoje pela contenção da despesa, virtual que seja, com o empenho com que há meses se batiam pelo seu aumento. E juram a urgência em controlar o défice com a convicção usada em Fevereiro último para legitimar o défice enquanto – não se riam, por favor – instrumento de ajuda à economia.

Do lado oposto, estão os comunistas, facção PCP ou facção BE. Os comunistas assumiram a ruptura definitiva com o eng. Sócrates a pretexto dos sucessivos planos de austeridade. Para eles, o défice ou é irrelevante ou é relevante na medida em que permita depenar os “ricos” e insultar banqueiros e offshores. O fundamental, repetem, são os direitos dos trabalhadores, ainda que, na prática, a situação da maioria dos trabalhadores se agrave em função dos privilégios concedidos a uns tantos.

Em suma, uns destruíram a economia através do oportunismo, outros, caso mandassem, destruiriam a economia por convicção. É pena assistir à cisão dos que entre nós lutam pelo “Estado social”. Vale que a fúria com que enfrentam a realidade é sempre una e indivisível, e a derrota é sempre certa. O que não deveria valer é sermos sempre nós a patrocinar os despojos.

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