Fim das ilusões

“A Matança” de Luís M Jorge

No domingo, mataram um porco.

O bicho foi trazido para perto da fogueira, amarrado a um estrado. Mal avistou a faca começou a ginchar alto, como se fosse o último dos Romanov. Mas o povo exibiu mão segura e o animal seria degolado, sangrado, pendurado em ganchos, esventrado e esquartejado em três tempos, com determinação ancestral. Três velhas de negro guisaram a fressura, um campónio assou as febras e a vanguarda do proletariado pegou em pratos de plástico, lambendo os beiços contra o capital.

O que ocorreu a seguir ainda me confunde um pouco. A multidão em fúria investiu contra a carcaça do suíno. As vísceras sumiram-se num ápice, dos bifes sobraram uns cotozinhos calcinados e eu passei o resto da tarde a comer bolacha araruta.

Assim, aos nove anos, com a presciência que me amaldiçoou desde então, compreendi que o socialismo tinha corrido horrivelmente mal. Não falei do episódio com o meu pai: ele ainda ficou uns anos no MDP, e creio que foi candidato a deputado — mas nunca mais o vi desencorajar, com familiaridade estudada, os pobres diabos que insistiam em tratá-lo por senhor engenheiro.

Por causa das merdas.

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