Egipto: instituições e democracia

“O Martelo Universal” de Fernando Gabriel (Diário Económico)

Por grosso, a coisa resume-se à regurgitação do credo revolucionário de Thomas Paine. (…) [O]s repetidores actuais dispensam-se de maçadas e declaram a democracia como o único sistema de governo, intrínseca e irrestritamente bom. Pouco lhes importa que na Inglaterra, onde Paine nasceu, a “universalização” da democracia foi o resultado de quase um século de reformas políticas graduais; ou que os EUA (…) tenham nascido como projecto republicano, só posterior e gradualmente democratizado. Não lhes ocorre, ou não lhes interessa, considerar as consequências potencialmente desastrosas da súbita introdução da “democracia” num país sem qualquer simulacro verosímil de Estado de Direito e em particular, sem um poder judicial independente e imparcial.(…)

Contrariar os desejos da turba, ou mostrar cepticismo quanto à prioridade da “democracia”, assegura imediatamente a condenação moral de “colaboracionismo” com a autocracia do senhor Mubarak, uma condenação sem recurso já aplicada às políticas externas dos países ocidentais. Rousseau e Paine também supunham que a política externa era uma “conspiração” de governos corruptos contra “os povos”, e, à semelhança de Trotsky, não lhe viam qualquer utilidade depois do “triunfo revolucionário”. As suas réplicas actuais desdobram-se em argumentos engenhosos para demonstrar a inocuidade prospectiva da Irmandade Islâmica e a desnecessidade de qualquer política externa: basta abençoar a democratização imediata do Egipto e o mundo árabe vai de si mesmo. (…) Emancipar o Egipto exige dotar o país de um Estado de Direito que faculte aos egípcios o acesso legal à propriedade, uma tarefa complexa que necessita do apoio de uma diplomacia ocidental cuidadosa e sofisticada. Insistir na democracia sem cuidar desta e de outras questões institucionais dará péssimo resultado; argumentar que a democracia encarregar-se-á de resolver os problemas, oscila entre a desonestidade e a ignorância, mas como dizia Mark Twain, quando só se tem um martelo, tudo se parece com um prego.

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