Obama e Osama (2)

Em complemente ao artigo do Diário Económico, duas notas adicionais de Fernando Gabriel

Dois aspectos importantes suscitados pelo discurso de Obama ficaram de fora do texto final da coluna. O primeiro refere-se a outra teoria amplamente difundida, segundo a qual a eliminação de bin Laden “não afecta” a organização da al Qaeda porque, presumivelmente, não passaria de uma “referência heróica” para os aderentes à causa do jihadismo. Suspeito que à medida que for possível conhecer parte da informação apreendida nas instalações onde se escondia, esta teoria será amplamente revista: as primeiras notícias sugerem que bin Laden mantinha a coordenação efectiva da al Qaeda.

O segundo refere-se à extraordinária frase proferida por Obama, ao anunciar a execução de bin Laden: justice has been served. Gostaria muito de saber qual teria sido o conteúdo dos jornais ocidentais no dia seguinte se o presidente dos EUA ainda fosse George W. Bush e, na sequência de uma invasão do território soberano de um país (formalmente) aliado, para levar a cabo uma execução sumária, Bush tivesse aparecido na televisão a proferir o mesmo discurso de Obama. O conceito de “justiça” implícito na declaração já o conhecemos: é o conceito de “justiça” prevalecente nos julgamentos revolucionários de Saint-Just e Robespierre, comum à maioria dos despotismos do séc. XX; uma sensação desconfortável agravada pela invocação de sondagens, indicando a “aprovação popular maioritária”, como se tal constituísse uma forma de justificação. Para que não restem dúvidas: gostaria que o terrorista tivesse sido capturado, interrogado, apresentado a um tribunal competente, provavelmente militar e norte-americano, julgado e condenado, eventualmente à pena capital, mas de acordo com a lei. A verificar-se a absoluta impraticabilidade da captura de bin Laden, algum dos certamente caríssimos assessores de Obama devia ter-lhe explicado as implicações de tal frase: pelos vistos, os anos que Obama empregou a estudar Direito em Columbia e Harvard somados aos anos em que ensinou Direito Constitucional na universidade de Chicago não foram suficientes para que o próprio fizesse uma reflexão mínima sobre o peculiar conceito de “justiça” que declarou ter sido “servida”.

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