O nó do problema

Este artigo de Bruno Faria Lopes explica de forma clara o mecanismo de intervenção do BCE nos mercados de dívida pública e os problemas que ele coloca. E que serão enormemente potenciados com o alargamento das intervenções aos títulos espanhóis. e italianos. Aborda ainda sucintamente as limitações do FEEF para acompanhar o alargamento da crise.

O BCE utiliza esta moeda nova para comprar no mercado secundário títulos de dívida pública de Espanha e Itália. Agindo como comprador, o banco central trava a pressão vendedora de investidores institucionais (fundos de pensões, por exemplo) e especuladores, fazendo baixar os juros nesse mercado e impedindo que o contágio se transmita aos leilões de dívida, com juros insustentáveis.(…)
Mas há problemas com a utilização recorrente desta arma (…). O primeiro problema chama-se inflação. (…) aqui a instituição liderada por Trichet tem resolvido este problema com a chamada “esterilização” das compras de dívida.

“O BCE cria nova moeda para comprar, mas depois compensa retirando moeda nos leilões de cedência de liquidez aos bancos”, explica Filipe Garcia, economista da consultora IMF, no Porto. Assim a massa monetária em circulação permanece controlada (…).

Este processo tem sido fácil, mas o volume exigido para salvar Itália e Espanha (terceira e quarta maior economia do euro) muda o cenário. Juntos, os dois países valem 30% da dívida do euro, cerca de 2,7 biliões de euros (25 vezes a dívida directa do Estado português). Contas do R[oyal] B[ank of] S[cotland] põem em 850 mil milhões de euros a factura de um resgate a ambos os países – um valor muito difícil de esterilizar caso caia só sobre o BCE.

Mas há outro problema directo com este tipo de intervenção: as potenciais perdas no balanço do BCE, um cenário provável dada a porta já aberta a uma reestruturação da dívida grega. “Num cenário de perda limite o BCE teria que fazer um aumento de capital aos seus accionistas”, aponta Pedro Matos Branco. Os accionistas são os países da zona euro – Portugal tem 1,75% do capital, através do Banco de Portugal. “No final uma perda grande é paga pelos contribuintes dos países”, diz Filipe Garcia. (…)

 

Os alemães e restantes países do Norte não querem que o BCE passe este cheque aos países com problemas orçamentais, preocupam-se com a inflação e vêem estas compras como uma ponte até que o Fundo Europeu de Estabilização Financeira (FEEF) possa comprar dívida, o que acontecerá no Outono.

Ironicamente, o problema está precisamente no FEEF – os actuais 450 mil milhões não chegam para acompanhar as palavras dos políticos europeus de que estão dispostos a fazer tudo para salvar o euro. A resistência para duplicar ou triplicar o FEEF continua a ser muito grande no Norte da Europa – como continua enorme a desconfiança nos mercados sobre a viabilidade do euro.

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