Um aspirante a ditador

Rui Moreira a propósito do falecimento de Eurico Corvacho

Diz o relatório que em Março de 1975 foram presos, na cidade do Porto, militares e civis que, “na opinião do Comando da Região Militar do Norte, pertenceriam ou colaborariam com o Exército de Libertação Português, e que teriam ligações com os implicados nos acontecimentos do 11 de Março”. Ouvidos os queixosos e os intervenientes nas prisões, a comissão apurou que as detenções foram efectuadas por militares, predominantemente em traje civil e não militar, sem que tivessem sido exibidos os mandados de captura ou a sua identificação; que os presos estiveram sujeitos a longos e injustificáveis períodos de prisão preventiva em regime de incomunicabilidade extensivo a contacto com advogado; que o regime prisional, a que estiveram sujeitos na cadeia de Custóias, e determinado por Corvacho, apesar de se tratar de um estabelecimento civil, era “completamente anormal, com ausência de recreio durante longos períodos, com vigilância exercida por um preso do foro comum, com a proibição de assistência médica, tudo se tendo conjugado para provocar perturbações físicas e psíquicas nos detidos”; que havia indícios de que, nos interrogatórios, nunca passados a escrito, foram utilizados “métodos de intimidação, provocação, ameaças e insultos”. A comissão não pode comprovar, porque os militares o negaram, as acusações de que foram praticadas violências físicas durante os interrogatórios, e os simulacros de fuzilamento relatados pelos detidos.

O meu Pai foi uma das vítimas de Corvacho, e da sua inventona. Foi preso no dia 12 de Março, na sede da sua empresa, onde permaneceu, apesar de ter sido avisado que iria ser detido, porque não tinha razões para fugir. Viu os seus bens congelados, a empresa ocupada, a casa de família atacada por bandos armados. Sofreu as tais sevícias que os corajosos carcereiros sempre negaram, que lhe deixaram marcas físicas e psicológicas para o resto da vida. A família foi alvo de tentativas de extorsão por parte de militares, que prometiam a sua libertação a troco de dinheiro. Em Junho de 1975, centenas de trabalhadores da sua empresa, a Molaflex, manifestaram-se junto ao Quartel-General, exigindo a sua libertação. A manifestação foi reprimida, e o meu Pai foi transferido, em segredo, para Caxias, sem que a família tenha sabido, durante semanas, do seu paradeiro. Nunca foi acusado de nada, certamente porque nunca nada fez, e foi libertado em Novembro desse ano por Pires Veloso, esse sim um militar exemplar.

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