Tag Archives: Alberto Gonçalves

Ridículos inflexíveis (2)

“A ditadura do precariado”. Um vídeo da Sábado online por Alberto Gonçalves

Um homem de convicções alheias

Excerto de “Os Dias Contados” de Alberto Gonçalves (Diário de Notícias)

Se perguntam a Manuel Alegre pelo Orçamento, ele responde que o grave é que Cavaco Silva não se pronuncie a respeito. Se perguntam a Manuel Alegre pelos juros da dívida pública, ele responde que o grave é que Cavaco Silva não tome uma posição. Se perguntam a Manuel Alegre pelas horas, ele responde que o grave é Cavaco Silva não usar relógio a pilhas. O grave, digo eu, é semelhante deserto opinativo ser candidato à presidência da República. É verdade que, numa rara aceitação dos seus limites, ele já avisou que um mandato basta para fazer o que quer. Acho que bastaria um dia.

Ferro-velho

Excerto de “Os Dias Contados” de Alberto Gonçalves (Diário de Notícias)

Parece que Ana Paula Vitorino, ex-secretária de Estado dos Transportes e actual dirigente e deputada socialista, teria confessado aos investigadores do caso “Face Oculta” as pressões que sofreu do eng. Mário Lino para resolver uns problemas entre a empresa pública que gere a rede ferroviária e o popular sucateiro Manuel Godinho. Parece que um responsável da Refer obstara a negócios com o sucateiro. Parece que o sucateiro se queixara ao então ministro das Obras Públicas. Parece que o então ministro dos Transportes explicara à dra. Ana Paula que o sucateiro era um “amigo do PS” e convinha desanuviar o ambiente. Parece.

Também parece que o PS não gostou da confissão da dra. Ana Paula e pressionou-a a rever a sua posição. E parece que a dra. Ana Paula reviu. Cinco dias depois de o DN revelar as declarações da senhora ao Ministério Público, a senhora esclareceu os companheiros de partido e de parlamento através de uma carta.

A carta é típica. A dra. Ana Paula invoca a “ética republicana” e a fidelidade partidária para afirmar que lhe truncaram as declarações e que lamenta a violação do segredo de justiça. Em Portugal, a violação do segredo de justiça aparentemente nunca produz resultados fiáveis e, mesmo assim, consegue ser o único crime a afligir as alminhas. Já a violação da própria justiça não aflige ninguém.

A crise dentro da crise

Excerto de “Os Dias Contados” de Alberto Gonçalves (Diário de Notícias)

É apreciável a resistência dos que, numa luta sem tréguas contra a realidade, continuam a discutir a nossa crise como se a nossa crise resultasse do capitalismo “selvagem”, da “desregulação” (sic) dos mercados, dos especuladores, do “egoísmo” da sra. Merkel, da União Europeia, dos EUA, do FMI, da banca, das agências de rating e, se não estou em erro, do Grupo de Cantares de Manhouce.

Nas cabecinhas voltadas à esquerda, aliás maioritárias, as monstruosas entidades acima conspiram para arrasar Portugal e o seu encantador “Estado social”. Presumo que será escusado explicar-lhes que foi o “Estado social”, ou o arremedo inevitavelmente corrupto que por cá se construiu, o responsável pelo buraco em que nos metemos. Em Julho de 2009, um bando de economistas dessa curiosa escola produziu um abaixo-assinado a subscrever a “aposta” do Governo no “investimento” público. E isso numa altura em que toda a gente que queria perceber já tinha percebido que é na arbitrariedade com que uns poucos consomem o dinheiro de todos que reside o maior drama nacional. A crise é a crise do “Estado social”.

Agora, ainda que numa escala pequenina e burlesca, temos também a crise dos seus defensores. Embora se mantenha nas causas, a unanimidade que existia quanto ao remédio sumiu. De um lado, estão os “lealistas”, no sentido de que são leais ao eng. Sócrates e às suas cambalhotas. Batem-se hoje pela contenção da despesa, virtual que seja, com o empenho com que há meses se batiam pelo seu aumento. E juram a urgência em controlar o défice com a convicção usada em Fevereiro último para legitimar o défice enquanto – não se riam, por favor – instrumento de ajuda à economia.

Do lado oposto, estão os comunistas, facção PCP ou facção BE. Os comunistas assumiram a ruptura definitiva com o eng. Sócrates a pretexto dos sucessivos planos de austeridade. Para eles, o défice ou é irrelevante ou é relevante na medida em que permita depenar os “ricos” e insultar banqueiros e offshores. O fundamental, repetem, são os direitos dos trabalhadores, ainda que, na prática, a situação da maioria dos trabalhadores se agrave em função dos privilégios concedidos a uns tantos.

Em suma, uns destruíram a economia através do oportunismo, outros, caso mandassem, destruiriam a economia por convicção. É pena assistir à cisão dos que entre nós lutam pelo “Estado social”. Vale que a fúria com que enfrentam a realidade é sempre una e indivisível, e a derrota é sempre certa. O que não deveria valer é sermos sempre nós a patrocinar os despojos.

Aquele que sofre por todos nós

Excerto de “Os Dias Contados” de Alberto Gonçalves (Diário de Notícias)

Coitado do eng. Sócrates. A dra. Ana Gomes, conhecida pelo fervor humanitário, já avisou ser “tempo de todos os socialistas se unirem, estoicamente, em apoio ao Primeiro Ministro (sic)”. Porquê? Por causa da “agrura de ter de decretar medidas durissimas (sic) e de arrostar com incompreensão e impopularidade”. E o dr. Almeida Santos, embora com menos erros ortográficos, vai mais longe ao pedir o contributo de todos os portugueses: “O povo”, proclamou a eminência, “tem que sofrer as crises como o Governo as sofre”. Continuar a ler

A feira do senhor primeiro-ministro

Excerto de “Os Dias Contados” de Alberto Gonçalves (Diário de Notícias)

Porque é que milhares de crianças insistem em perder anos no ensino tradicional para obter o que as Novas Oportunidades lhes dariam num instante? Porque é que não se saltam as Novas Oportunidades e se distribuem doutoramentos aos recém-nascidos? Porque é que a epopeia de modernidade e crescimento para que o senhor primeiro-ministro nos convocou termina invariavelmente em rábula cómica, na educação e no resto? Porque é que a realidade teima em contrariar a propaganda que vai na cabeça de D. Sócrates I e, se os céus tiverem misericórdia de nós, último?

‘Gays’ pela Palestina

Excerto de “Os Dias Contados” de Alberto Gonçalves (Díário de Notícias)

Se apetece ceder a meia dúzia de graçolas a propósito de um festival de cinema sexualmente orientado, a graça maior está no facto de “activistas” alegadamente em prol dos direitos gay defenderem a Palestina, que formal e informalmente discrimina, tortura e mata os “pervertidos”, e abominarem Israel, que faz dos seus homossexuais plenos cidadãos, acolhe os homossexuais alheios e em fuga e, não satisfeito, ainda paga exibições de fitas do género a milhares de quilómetros de distância. Não seria diferente se uma associação de perdizes reivindicasse o alargamento do período de caça.

Claro que, nesta história e em todas as histórias assim, os gays não passam de um pretexto descartável. Os gays, os transgénicos, as mulheres, os pobres, as minorias étnicas, os palestinianos, o Abu-Jamal e restantes “oprimidos”, com ou sem aspas, são o meio que “justifica” o desporto favorito dos bandos em causa, chame-se-lhe anti-semitismo ou, para consumo público, “anti-sionismo”. Numa época em que os vigilantes de serviço procuram “racistas”, “fascistas” e “neonazis” em cada canto, espanta que não os descubram nas imediações do Bloco e da extrema-esquerda em geral, em Portugal os seus actuais e genuínos representantes.

Falta acrescentar que os organizadores do Festival de Cinema Gay e Lésbico tremeram face às pressões e anunciaram que, de futuro, ponderam recusar subsídios de Israel, uma mariquice que lhes fica a matar e abre portas para os apoios de Gaza, Síria, Líbia e esse lugar exótico onde a homossexualidade nunca existiu, o Irão. Irão longe.

Os malucos no hospício

Excerto de “Os Dias Contados” de Alberto Gonçalves (Diário de Notícias)

O PS acusa o PSD de querer acabar com o “Estado social”. O PSD acusa o PS de acusar o PSD de querer acabar com o “Estado social”. Os partidos comunistas acusam PS e PSD de quererem acabar com o “Estado social”. Embora fascinante, o debate lembra a anedota do maluco que pede ao parceiro de hospício para adivinhar o que tem na mão, o parceiro responde “um autocarro”, e o maluco diz que não vale porque o outro espreitou. Convinha perceber que o “Estado social” propriamente dito não existe em Portugal. No mínimo, é uma figura de estilo que sustenta manobras eleitorais e disfarça, muito mal, o assalto da coisa pública por determinados grupos e indivíduos. No máximo, é um arremedo, aliás comprovadamente nocivo, dos esforços caritativos dos países europeus mais ricos, os quais já verificaram a falência da ideia e procuram novos rumos. Nós insistimos no nosso: um Estado hipotético e alucinado, a descobrir autocarros em mãos vazias.

Humor de perdição

Excerto de “Os Dias Contados” de Alberto Gonçalves (Diário de Notícias)

Bastou que o projecto de revisão constitucional do PSD considerasse a mera hipótese de alienação dos canais televisivos estatais para que as tropas se mobilizassem. E mobilizaram-se tão rapidamente que Arons de Carvalho, uma sumidade que só desce à Terra quando o estatuto da RTP é ameaçado, já se encontra a liderar um abaixo-assinado contra uma privatização que não existe, não se sabe quando existirá e nem sequer se sabe se virá a existir.

Rapidez à parte, o importante é que o dr. Arons não se apresenta sozinho: com ele, todos janotas, vêm dois argumentos a favor da manutenção da RTP (e da RDP) ao serviço do Governo, perdão, do público.

O primeiro argumento é o do custo. De acordo com o dr. Arons, cada português paga, pela televisão e rádio públicas, uns singelos dois, três euros mensais, menos, conforme ele apropriadamente lembra, do que um bilhete de cinema, ou 27,6 euros anuais, menos do que 12 bilhetes de cinema. Os montantes tornam-se ainda mais irrisórios ao constatarmos que, nos últimos nove anos, apenas se despejaram 2,4 mil milhões de euros na RTP, menos do que mil milhões de bilhetes de cinema das sessões baratinhas.

O segundo argumento do dr. Arons é o do benefício. Na sua sábia perspectiva, os media públicos oferecem, a troco dos mencionados trocos, a “diversidade”, maravilha que o dr. Arons exemplifica com os “programas para minorias”. Dado que a RTP ainda não emite produtos destinados a anões, zulus ou transexuais, presumo que as minorias em causa sejam as que vêem as conversas “culturais” da RTP2 ou os concursos daquele sr. Malato. Mas as vítimas de encefalopatia crónica também são gente.

A terminar, o dr. Arons avisa que quem adquirisse a RTP o faria unicamente pelo lucro, esse monstro que hoje se afugenta com galhardia, e prevê que a privatização seria, cito, uma tragédia. Evidentemente, o dr. Arons prefere a comédia.

Os fogos do Alcorão

Excerto de “Os Dias Contados” de Alberto Gonçalves (Diário de Notícias)

Perante a anunciada queima de exemplares do Alcorão, “represália” prévia de um pastor americano à hipotética construção de uma mesquita junto ao Ground Zero, por todo o Ocidente inúmeras almas horrorizadas perguntaram: o que aconteceria se muçulmanos queimassem a Bíblia ou a Tora?

A resposta é simples: nada. Não conheço casos em que tenham sido incinerados os livros sagrados de cristãos e judeus, mas ocorrem-me alguns casos recentes em que os servidores do Islão atearam fogo a numerosos cristãos e judeus propriamente ditos, além de ateus, budistas, xintoístas, animistas e, imagine-se, muçulmanos que se encontravam ao alcance das explosões perpetradas por “mártires”.

A diferença passa justamente pelo “martírio”. Quer concretize ou não a ameaça (à hora a que escrevo, parece que não), ninguém, ou quase ninguém, louvará o dúbio heroísmo do tal pastor da Florida, que exerce numa igrejinha exótica e, nem de propósito, dá pelo nome de um dos Monty Python, Terry Jones. Pelo contrário, aqueles que assassinam em nome de Alá contam com o apoio, o incentivo e, após consumação do acto, o agradecimento de tantos dos seus parceiros de crença e líderes espirituais.

A desigualdade é de facto notável. Nós temos um excêntrico que promete atirar papel para o fogo; eles têm milhares (ou milhões) de criaturas desejosas de ver arder cada infiel à superfície da Terra. Nós ficamos alarmadíssimos com o excêntrico; eles prometem vingar-se de todos os que o rodeiam. Nós tentamos compreender as causas do ódio alheio e não esquecemos que este não representa o famoso Islão “moderado”; eles não tentam compreender coisa nenhuma e o Islão “moderado” costuma esquecer-se de moderar seja o que for.

No primeiro aniversário do 11 de Setembro, aliás, o jornalista Thomas L. Friedman avisava no New York Times que “se não houver uma luta dentro do Islão sobre regras e valores, haverá uma luta entre o Islão e nós”. Friedman não previu a possibilidade de uma capitulação total do Ocidente, que vive aterrado a evitar o lançamento de Alcorões para a fogueira. Nove anos após 2001, eles defendem a uma voz o Islão. E nós, fora uma minoria desprezada e uns equívocos bizarros, também. Não há luta, pois.