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Et tu Gros?

 
Na sua opinião, Portugal tem de ser firme, deixando que as empresas vão à falência, em vez de assumir as suas dívidas ou de conceder empréstimos a firmas ineficientes só para preservar a produção e os empregos. “O impacto no PIB será enorme, mas agora é um PIB insustentável… a economia tem de registar uma contracção até chegar a um excedente das contas correntes”, acrescentou, adiantando que para isso é preciso que o consumo nacional caia entre 10% a 15% e os salários desçam até 20%.

Et tu Krugman? (4)

Alarme nas hostes “abrantinas”. O guru Paul Krugman volta a insistiar na redução dos salários em Portugal.

O prémio Nobel repetiu a recomendação que tinha feito logo no início da crise da dívida, em Maio de 2010, quando disse que países como Portugal, a Grécia ou a Espanha teriam de fazer os seus salários cair 20 a 30% em relação à Alemanha.

“Não é agradável, mas é o que tem de acontecer”, afirmou, dizendo que seria preferível subir os salários dos alemães – de modo a estimular o consumo no país e, consequentemente, as outras economias do euro – do que descer os vencimentos nacionais. “Mas, em última instância”, admitiu, “vai ter de ser à custa dos salários dos portugueses”.

E, para quem ainda não percebeu, Krugamn não está contra a austeridade em termos genéricos. O que defende é que esta nâo pode ocorrer simulatanêamente na Alemanha e nos países periféricos.

E eu proponho que a consilidação se faça pela descoberta de poços de petróleo

No Jornal de Negócios:

António José Seguro aproveitou a entrevista à RTP para criticar o caminho seguido pelo Governo para consolidar as contas públicas em Portugal. O Governo propõe a austeridade e “proponho outro caminho” que passa por “ter como prioridade o crescimento e o emprego”.

Realmente o caminho proposto pelo líder socialista parece bem mais simpático e faz lembrar a fantástica redução do défice feita pelo primeiro governo de José Sócrates. Aproveitou o aumento da receita fiscal e manteve a despesa a subir a bom ritmo. Quando lhe faltou a receita foi o descalabro. A situação que herdou já não era famosa mas ele conseguiu deixar-nos em pior estado. Bem pior. É pois, perfeitamente natural que Seguro “Não consig[a] visualizar mais medidas de austeridade”. Para os socialistas não há vida para além do défice.

Et tu Krugman? (2)

Visivelmente incomodado com o comentário de Paul Krugman (que arrasa com parte fundamental da desculpabilização do governo socialista) o deputado Saldanha Galamba alega que este apenas recomendou o artigo de Gianluca Cafiso mas “não o corrobora”.  Provavelmente o economista americano terá esclarecido este ponto nalguma conversa privada com o ilustre deputado já que a leitura do post original não permite validade a sua tese.

Et tu Krugman?

Jornal de Negócios

«Paul Krugman comenta hoje no seu blogue o mais recente trabalho sobre as razões que explicam a acentuada deterioração do endividamento público nos países europeus de Gianluca Cafis (…)

“As projecções sugerem que alguns países europeus estavam numa trajectória orçamental insustentável muito antes da crise financeira de 2008-09, caso da Grécia, Portugal e Reino Unido; ao invés, outros estavam numa trajectória sólida, caso de Espanha, Irlanda e Itália”.

O economista norte-americano corrobora as conclusões do estudo que sugere que, nem num cenário mais benigno, Portugal e Grécia poderiam regressar à dinâmica de endividamento que tinham antes da crise, porque ela era, já de si, insustentável: no prazo de dez anos, em 2021, a dívida estaria, em ambos os casos, acima ou perto do equivalente a 150% do PIB.

Krugman admite, deste modo, que Portugal e Grécia poderiam não ter alternativa a uma política de austeridade – que ele tanto tem criticado.»

Aguardo os comentários do clube de fãs de Paul Krugman.

E a solidariedade, pá?

E ninguém se indigna pela falta de solidariedade do governo português e dos contribuintes continentais que impoem a austeridade e a perda de soberania à Madeira?

Devemos evitar a austeridade orçamental?

“Can austerity be self-defeating?” de Daniel Gros (Vox.eu)

It is sometimes argued that a cut in expenditure (or an increase in taxes) would be self-defeating because it reduces demand so much that tax revenues fall so strongly that as a result the deficit actually increases. In standard models this is kind of ‘Laffer curve’ effect is actually not possible. Moreover, if it were true, it would follow that an increase in expenditure could actually lead to lower deficits because higher growth could increase tax revenues so much that they outweigh the increase in expenditure. This proposition has been tested several times in the US, and always found failing.(…)

[T]his condition might be satisfied for countries with debt/GDP ratio higher than 100% if we believe certain ‘Keynesian’ models with fiscal multipliers that exceed one (ie the impact of higher expenditure on output is larger than the amount of expenditure itself). However, in most ‘neo-Keynesian’ models the ‘multipliers’ are often considerably lower than this. If these models describe reality better it is unlikely that austerity could be self-defeating – even in the short run.(…)

The basic point is simple. The permanent deficit cut lowers the growth rate of debt, while the permanent impact on GDP is of the path-lowering type, not the growth-lowering type. Thus any initial increase in debt/GDP will be reversed over time.

Of course an even more extreme version would have it that permanent deficit cuts reduce the long-run growth rate, but this is not a result found in even the most extreme Keynesian models.(…)

Ainda acerca do referendo grego

Não podia estar mais de acordo com que o Nuno Ramos de Almeida escreve no 1º parágrafo deste artigo. A chamada “construção europeia” é obra de elites supostamente esclarecidas e, preferencialmente, outorgado ao povo por decreto. Porém, discordo em absoluto dos restantes argumentos.

A politica económica da Grécia é frequentemente referendada em eleições e escolha dos eleitores sempre foi o despesismo. Provavelmente, o que nunca imaginaram foi que chegaria o momento de pagar a conta. Mesmo que venha a ser acordado uma reestruturação que coloque a dívida grega num nível sustentável a austeridade é sempre inevitável. Até porque a Grécia vai ficar muitos e bons anos sem acesso aos mercados de crédito e vai ter um longo e penoso trabalho para os convencer que daquela vez tenciona mesmo honrar as suas dívidas. Os gregos até podem decidir que não querem a austeridade imposta pelo exterior. Só que isso levará à interrupção no financiamento externo e implicará um ajustamento muito mais rápido e violento. Um terreno bastante fértil para “gerar [a] injustiça, o ódio e talvez a guerra“.

Frição e o Vazio

Artigo de Fernando Gabriel no Diário Económico

Há duas décadas que o “aprofundamento”, i.e., a transformação da União Europeia numa união económica e política, avança com pompa auto-congratulatória.

Faltava aos europeístas uma ocasião para tornar o seu desejo de poder numa possibilidade prática, através da concentração de amplos recursos; uma crise, que permitisse reclamar o reforço da centralização em nome da superior necessidade de resolver um ‘problema’, tão dominante e urgente na sua “solução” que todo o cepticismo e precaução devem ser abandona’dos. A evolução da crise financeira para uma crise de dívida soberana proporcionou essa ocasião. Com uma rapidez que deixaria Heinz Guderian surpreendido, as regras que impediam os estados europeus de ser responsáveis pelas dívidas de outros estados, ou a proibição de envolvimento do BCE no financiamento de estados, foram reescritas ou simplesmente ignoradas.

Tendo em conta a ambição de poder europeísta, as tentativas de fundamentação são paradoxalmente escassas. Em parte porque a generalidade dos crentes imaginam a união política como um fatalismo histórico, uma consequência linear da integração económica; em parte porque o processo de acumulação de poder tem uma aparência auto-evidente. As raras justificações da necessidade do “aprofundamento” apresentam-no como a forma de superação do problema de falta de legitimidade democrática e como a única conclusão possível de qualquer reflexão que privilegie o altruísmo europeísta, por oposição aos “egoísmos” nacionalistas.

Sucede que na UE nada o é. A aparência de altruísmo europeísta esconde um despudorado interesse nacional: o “salvamento” da Grécia foi apressadamente montado para evitar perdas aos bancos alemães e franceses, os verdadeiros beneficiários. As consequências da incontinência orçamental da Grécia e de outros países com governação medíocre só podem ser adiadas, nunca evitadas: não só a reestruturação de algumas dívidas é inevitável, como o recurso ao aumentos de impostos no curto prazo reduz ainda mais o crescimento económico e portanto as possibilidades de reequilíbrio orçamental a médio prazo. O europeísmo oferece a estes estados uma escolha: ou aceitam a condição de neo-colónias, que precisam de ser “administradas” de modo a não causarem danos ao centro europeu, ou rejeitam a perda de soberania e serão forçados a sair do Euro.

Historicamente, a teleologia integracionista é inspirada por uma interpretação errada da unificação política da Alemanha. Não foi a conclusão “lógica” de um hipotético processo linear de integração económica iniciado na Zollverein; foram necessárias duas guerras para afirmar a hegemonia política da Prússia sobre os restantes estados da confederação germânica, em 1864 contra a Dinamarca e o império Austro-Húngaro e em 1870 contra a França. Politicamente, o problema de legitimidade é insolúvel e o aprofundamento só pode agravá-lo: a UE não é nem nunca será uma democracia representativa porque não existe nenhuma demos europeia. Como sublinhou Raymond Aron, a ideia política europeia é vazia; não tem a transcendência das ideologias messiânicas nem a imanência do patriotismo concreto. A UE nasceu da paz; nunca será uma potência geopolítica mas tem a capacidade de criar condições materiais satisfatórias para os europeus, na diversidade das tradições políticas ocidentais. Quando os europeístas descobrirem que a sua ficção é impotente contra aquilo que Clausewitz chamava de fricção -a resistência da realidade contra o avanço dos planos, nada restará a não ser o vazio. E esse sim, voltará a ser um mundo perigoso para os europeus