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I told you so

Após muita resistência consta que o BCE irá finalmente aceitar um “haircut” na dívida grega que detém.  Três considerações.

Primeiro. Segundo cálculos efectuados por vários analistas para colocar a dívida grega num patamar sustentável a reestruturação terá de eliminar cerca de 70% do montante em dívida. Portanto, mesmo com a participação do BCE (que dados os montantes de dívida que detém nunca poderia ficar fora deste processo) qualquer valor significativamente mais baixo não será credível para o mercado. Digo eu.

Segundo. Uma vez que duvido que os títulos gregos estivessem contabilizados a valor de mercado no balanço do BCE isto implicará uma importante “rombo” nas contas do banco central europeu.  Quem irá participar num eventual aumento de capital? Pois.

Terceiro. Ainda seja fundamental a reestruturação da dívida grega não percebo os festejos deste blogger. Se o acesso aos mercados já era difícil agora ficará impossível. A não ser que descubram entretanto uma fonte inesgotável de riqueza isto vai implicar (ainda) mais provações para o povo grego. Se o próprio BCE se arrisca a perder o dinheiro que emprestou à Grécia que é que lhe vai emprestar dinheiro agora? Eu não.

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Liguem as impressoras

Metade dos investidores acredita que BCE vai imprimir dinheiro

O nó do problema

Este artigo de Bruno Faria Lopes explica de forma clara o mecanismo de intervenção do BCE nos mercados de dívida pública e os problemas que ele coloca. E que serão enormemente potenciados com o alargamento das intervenções aos títulos espanhóis. e italianos. Aborda ainda sucintamente as limitações do FEEF para acompanhar o alargamento da crise.

O BCE utiliza esta moeda nova para comprar no mercado secundário títulos de dívida pública de Espanha e Itália. Agindo como comprador, o banco central trava a pressão vendedora de investidores institucionais (fundos de pensões, por exemplo) e especuladores, fazendo baixar os juros nesse mercado e impedindo que o contágio se transmita aos leilões de dívida, com juros insustentáveis.(…)
Mas há problemas com a utilização recorrente desta arma (…). O primeiro problema chama-se inflação. (…) aqui a instituição liderada por Trichet tem resolvido este problema com a chamada “esterilização” das compras de dívida.

“O BCE cria nova moeda para comprar, mas depois compensa retirando moeda nos leilões de cedência de liquidez aos bancos”, explica Filipe Garcia, economista da consultora IMF, no Porto. Assim a massa monetária em circulação permanece controlada (…).

Este processo tem sido fácil, mas o volume exigido para salvar Itália e Espanha (terceira e quarta maior economia do euro) muda o cenário. Juntos, os dois países valem 30% da dívida do euro, cerca de 2,7 biliões de euros (25 vezes a dívida directa do Estado português). Contas do R[oyal] B[ank of] S[cotland] põem em 850 mil milhões de euros a factura de um resgate a ambos os países – um valor muito difícil de esterilizar caso caia só sobre o BCE.

Mas há outro problema directo com este tipo de intervenção: as potenciais perdas no balanço do BCE, um cenário provável dada a porta já aberta a uma reestruturação da dívida grega. “Num cenário de perda limite o BCE teria que fazer um aumento de capital aos seus accionistas”, aponta Pedro Matos Branco. Os accionistas são os países da zona euro – Portugal tem 1,75% do capital, através do Banco de Portugal. “No final uma perda grande é paga pelos contribuintes dos países”, diz Filipe Garcia. (…)

 

Os alemães e restantes países do Norte não querem que o BCE passe este cheque aos países com problemas orçamentais, preocupam-se com a inflação e vêem estas compras como uma ponte até que o Fundo Europeu de Estabilização Financeira (FEEF) possa comprar dívida, o que acontecerá no Outono.

Ironicamente, o problema está precisamente no FEEF – os actuais 450 mil milhões não chegam para acompanhar as palavras dos políticos europeus de que estão dispostos a fazer tudo para salvar o euro. A resistência para duplicar ou triplicar o FEEF continua a ser muito grande no Norte da Europa – como continua enorme a desconfiança nos mercados sobre a viabilidade do euro.

Lá vamos nós de novo

Afinal de contas, parece que as agências de notação não são assim tão determinantes. Apesar de classificados como “lixo”, o BCE já declarouque continuará a aceitar os títulos da dívida portuguesa como colateral. Duas considerações. Primeira. O BCE demonstra mais uma vez que as regras são modificadas à primeira oportunidade. Este tipo de comportamento, comum nas instituições europeias, explica em grande parte o calamitoso estados das finanças públicas dos países da zona euro. Segunda. Qualquer dia teremos o BCE terá que varrer o lixo do seu balanço. Vai dar uma bela conta e veremos se não é aí que morre o euro.

A inevitável reestruturação grega

“The ECB’s Three Mistakes in the Greek Debt Crisis” de Jeff Frankels

By now just about everybody agrees that the European bailout of Greece has failed: The debt will have to be restructured. As has been evident for well over a year, it is not possible to think of a plausible combination of Greek budget balance, sovereign risk premium, and economic growth rates that imply anything other than an explosive path for the future ratio of debt to GDP.(…)

The third mistake was the failure to send Greece to the IMF early in the crisis, before Greek interest rates went to 600 basis points (…). By January 2010 the need for the [Intenational Monetary] Fund should have been clear. Rather than going into shock, leaders in Frankfurt and Brussels could have welcomed the Greek crisis as a useful opportunity to establish a precedent for the long-term life of the euro. The idea that such a problem would eventually arise somewhere in euroland cannot have come as a surprise. After all, why had the architects written the Maastricht fiscal criteria and the No Bailout Clause (1991) and the Stability & Growth Pact (1997)? Skeptical German taxpayers believed that, before the project was done, they would be asked to bail out some profligate Mediterranean country. European elites adopted the fiscal rules precisely to combat these fears. (…)

But the reaction of leaders in both Frankfurt and Brussels was that going to the [Intenational Monetary] Fund was unthinkable, that this was a problem to be settled within Europe. They chose to play for time instead, to treat insolvency as illiquidity. Against all evidence — despite a decade of SGP [em português, o PEC] violations — they still wish to believe that they can impose fiscal discipline on member states. Despite two decades in which citizens of Germany and other European countries have expressed clearly that they do not share their leaders’ enthusiasm for Economic and Monetary Union, the latter apparently still wish to believe that further progress to political and fiscal union is possible. The emu has long since become an ostrich, burying its head in the sand.

It turned out that the German taxpayers were right all along. How, in light of that democratic deficit, can anyone think that Europe is ready for a transfer union?

Compreendo

O presidente do Banco Espírito Santo (BES), Ricardo Salgado, disse hoje discordar da privatização da Caixa Geral de Depósitos (CGD), considerando que “é preciso ter muito cuidado” com este tema.

Pois. Um banco público não faz concorrência ao banco do regime. E sempre útil para canalizar uns subsídios e avais encapotados.

Não eufóricos

Francisco Assis tinha pedido para “não entrarmos em euforia” após a comunicação em Primeiro-Ministro preferiu dizer ao páis o que não continha o acordo com a “troika”. Com excepção de alguns “abrantes” já naturalmente excitados, os portugueses terão feito a vontade a Assis.  Especialmente após saberem as medidas previstas no acordo. Parece que nos restantes paísses membros a euforia não foi exactamente o adjectivo que descreve a reacção dominantes. Segundo o DE,  “uma fonte diplomática de um país conservador” (sic) terá dito “”Surpreende-me que um programa de austeridade que implica perda de soberania seja apresentado como uma vitória negocial“.  No Financial Times, Wolfgang Munchau também não entra em euforias:

“The Greek government played it relatively straight but Portugal’s crisis management has been, and remains, appalling.

José Sócrates, prime minister, has chosen to delay applying for a financial rescue package until the last minute. His announcement last week was a tragi-comic highlight of the crisis. With the country on the brink of financial extinction, he gloated on national television that he had secured a better deal than Ireland and Greece. In addition, he claimed the agreement would not cause much pain. When the details emerged a few days later, we could see that none of this was true. The package contains savage spending cuts, freezes in public sector wages and pensions, tax rises and a forecast of two years’ deep recession.

You cannot run a monetary union with the likes of Mr Sócrates

ADENDA: Bastante curisosa esta nota de Pedro Martins “Passados mais de tres dias uteis da apresentacao do Memorando, o site do governo ainda nao o disponibiliza – nem a versao original, muito menos uma traducao em portugues. Pelo contrario, insiste no anuncio das nao-medidas.”

O que falta dizer sobre o plano de ajuda

Mais uma vez todos os contribuintes vão ser chamados a pagar durante longos e penosos anos o laxismo orçamental do governo e desregramento dos bancos nacionais. Os credores internacionais que durante anos alimentaram esta irresponsabilidade não só não serão penalizados como serão os principais beneficiários deste plano.

E agora, Saldanha (2)

O ilustre deputado Saldanha Galamba tenta aqui descodificar o seu primeiro post. Recorda-me o famoso Tino de Rans e até um simples plebeu consegue rebater a argumentação em poucas linhas.

Ora vamos lá ver. As medidas dos PEC IV (ou mesmo as que constam do memorando da troika – e ao contrário do que afirma o deputado as medias estruturais não são uma pequenita diferença) não anulam a necessidade da ajuda finaceira. O ilustre representante de Santarém estará recordado das dificuldades e necessidades de financiamento público assim como das actuais rupturas de tesouraria e atrasos de pagamento que se multiplicam nos organismo do estado. Não foi só Jürgen Kröger que falou nas consequências do atraso no pedido de ajuda. Os representantes do BCE e do FMI reforçaram esta ideia. A sua tentiva de desvalorizar a opinião descredibilizando o seu emissor é reveladora da pobreza da sua argumentação.

Lt Spinmaster, himself

“A nossa obrigação é não deixar o País numa situação de alarme”. É assim que o ministro da Presidência justifica o facto de José Sócrates ter feito uma declaração ao País sem revelar as medidas do plano, mas com muitos desmentidos a notícias veiculadas pela comunicação social.

Começa a ser difícil achar um mínimo de coerência nas declarações dos socialistas. Mesmo assim vou tentar perceber a lógica de Pedro Silva Pereira (e de José Sócrates). Vamos lá ver. Para sossegar uma população ansiosa nada melhor do que dizer o que não foi acordado com o BCE/UE/FMI do que dizer o que realmente consta do memorando. É isto? Não. Realmente não tem qualquer tipo de lógica.