Tag Archives: Dívida Pública

Acerca das estranhas divergências entre o défice e o endividamente públicos

“The unexplained part of public debt” de Camila Campos, Dany Jaimovich e Ugo Panizza

In Campos et al (2006), we (…) use data for 117 countries over a period of 30 years (1972–2003) to show that in the average country-year, debt grows 3 percentage points of GDP faster than what is implied by the budget deficit (…). The highest values are in sub-Saharan Africa, Latin America and the Caribbean, and the Middle East.(…) This is consistent with the findings of Aizenman and Powell (1998), who suggest that governments have incentives to misreport public expenditure and that this comes back to haunt them as debt is re-assessed in the future.

Ainda recentemente,nós por cá também tivemos dessas contas que não batiam certo.

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Quem te manda a ti sapateiro tocar rabecão? (4)

quem ainda viva na ilusão que a (necessária) reestruturação da dívida pública portuguesa iria evitar a continuação da austeridade. Parece ser incapaz de tirar ilações das suas próprias preposições. Quando diz “não vamos pagar a nossa dívida. Ponto final. Não é política, é matemática” não lhe ocorre que isto se deve ao desmesurado crescimento do endividamento público e que o estado não pode continuar a incorrer em sucessivos défices orçamentais. Mesmo que nos perdoassem 30 a 40% da dívida pública continuariamos com uma elevada factura para pagar.

 E contrariamente ao que ele julga, a reestruturação não pode ser feita sem o consentimento da “troika” e sem o assentimento dos credores. Porque os segundos, que actualmente já não nos emprestam dinheiro, irão exigir vários anos (décadas?) de bom comportamento orçamental para nos voltarem a dar crédito. E especialmente porque a primeira entidade é quem actualmente nos garante a maior parte do dinheiro para pagar salários aos funcionários públicos, subsídios e outros os fornecimentos e serviços ao estado.

 O Daniel Oliveira até pode estar a “marimbar[-se] para a troika“. Mas reze para que eles não nos devolvam o gesto. Palpita-me que passará a escrever as crónicas num jornal de parede. Até nem são precisos grandes conhecimentos de economia para perceber isto. Basta algum bom senso.

Safe haven

Segundo o WSJ hoje, pela primeira vez, os licitantes num leilão de dívida alemã aceitaram receber menos no futuro do que irão pagar agora.

“…for some investors, the return of their capital is clearly still far more important than the return on their capital. And Germany is probably benefitting as the pool of top-quality short-term bills has been sharply diminished as the euro-zone crisis has deepened and as ratings downgrades have kicked in.”

(via Ricardo Arroja)

Et tu Krugman? (2)

Visivelmente incomodado com o comentário de Paul Krugman (que arrasa com parte fundamental da desculpabilização do governo socialista) o deputado Saldanha Galamba alega que este apenas recomendou o artigo de Gianluca Cafiso mas “não o corrobora”.  Provavelmente o economista americano terá esclarecido este ponto nalguma conversa privada com o ilustre deputado já que a leitura do post original não permite validade a sua tese.

Et tu Krugman?

Jornal de Negócios

«Paul Krugman comenta hoje no seu blogue o mais recente trabalho sobre as razões que explicam a acentuada deterioração do endividamento público nos países europeus de Gianluca Cafis (…)

“As projecções sugerem que alguns países europeus estavam numa trajectória orçamental insustentável muito antes da crise financeira de 2008-09, caso da Grécia, Portugal e Reino Unido; ao invés, outros estavam numa trajectória sólida, caso de Espanha, Irlanda e Itália”.

O economista norte-americano corrobora as conclusões do estudo que sugere que, nem num cenário mais benigno, Portugal e Grécia poderiam regressar à dinâmica de endividamento que tinham antes da crise, porque ela era, já de si, insustentável: no prazo de dez anos, em 2021, a dívida estaria, em ambos os casos, acima ou perto do equivalente a 150% do PIB.

Krugman admite, deste modo, que Portugal e Grécia poderiam não ter alternativa a uma política de austeridade – que ele tanto tem criticado.»

Aguardo os comentários do clube de fãs de Paul Krugman.

O triste espetáculo de José Sócrates

Alberto Gonçalves sobre a doutrina sócratica quanto à gestão da dívida pública

[A]dmito que o episódio irritou-me um bocadinho, divertiu-me um bocadinho e envergonhou-me um bocadinho. Porém, o episódio sobretudo comoveu-me. De repente, pela primeira e espero que última vez na vida, dei por mim com pena do eng. Sócrates: o que foi aquilo, meu Deus? Uma coisa são as vastas limitações da criatura, outra é a candura com que a criatura as expõe, essa sim uma propensão infantil. Pobre homem, que não arranja uma alminha amiga para preveni-lo do ridículo que comete, que está rodeado de tontos ou sabujos prontos a alimentar os seus delírios, que vive enfim numa completa solidão. O preço do poder, ou dos privilégios amealhados no poder, não precisa de ser tão elevado. As benesses materiais e afins não podem servir unicamente para enxovalhar o usufrutuário, ainda que a falta de consciência do usufrutuário, tradicionalmente aliada aos excessos do respectivo ego, o ponham a jeito com regularidade.

Durante seis longos anos, assistimos ao espectáculo em cadeiras de orquestra. Hoje, o espectáculo prossegue em Paris. A rábula da entrada na Sciences Po da Sorbonne, segundo a imprensa rejeitada em duas ocasiões e conseguida à terceira mediante “cunha” diplomática, já constituiu um monumento de humilhação auto-infligida, a que os aplausos na conferência mencionada acrescentam agora, a título de clímax, a adequada dimensão irónica. A história da dívida “gerida” recebeu palmas porque os espectadores não percebiam português e porque o francês técnico do eng. Sócrates não chega para plateias, embora sobre para estudar numa das mais prestigiadas universidades do continente. Estudar, seja filosofia, economia, inglês ou engenharia, é a vocação dele. Aprender, inclusive a estar calado, não é. Típico de criança.

Ele não merece sanção

Ele estimula a economia: Dívida da Madeira sobe para seis mil milhões de euros

O enterro definitivo da eurobonds?

As recentissimas dificuldades sentidas pela Alemanha na colocação de dívida pública só um sinal que o “núcleo duro” do euro não tem livre acesso aos mercados e não são imunes ao risco. Podem haver quem ache que isto obrigará a Alemanha aceitar as eurobonds. Dificilmente. Como poderá um país com dificuldades na colocação da própria dívida ser o principal avalista na colocação das obrigações europeias?

ADENDA: no Zero Hedge: “The sale “prompted concerns the debt crisis was even beginning to threaten Berlin on Wednesday, with the Bundesbank forced to buy large amounts of the bonds to ensure the auction did not fail. The low yields offered on the 10-year paper deterred investors from the auction, especially because of growing concerns over the cost to Germany of the escalating crisis.

A insustentabilidade da dívida pública portuguesa (2)

“Contas em família (2)” de Tiago Mendes (Cachimbo de Magritte)

Imaginemos que numa família com pai, mãe e filho, o rendimento do agregado, auferido exclusivamente pelos pais, é de 2.000 euros. Imaginemos que os pais atribuem ao filho – estudante, sem outros rendimentos – uma mesada de 150 euros. O filho, por querer comprar um automóvel, endividou-se para fazer face a despesas totais de 240 euros por mês. Por mês o filho tem um “défice” de 90. Este défice de 90, face ao que ele recebe, que é 150, representa 60%. Mas, face ao que os pais ganham com o seu trabalho, é de 4.5%.

Pergunta: qual dos rácios é mais relevante – 60% do que ele ganha, ou 4.5% do que ganham os que o alimentam(…)

Esta discussão é importante porque revela bem como vemos a relação primordial entre cidadãos e estado (que é “pré-política”, e independente do que depois for feito com os impostos). Deve o Estado ser encarado com uma entidade relativamente autónoma e responsável, que, seguindo princípos básicos de prudência, faz as contas do seu défice tendo em conta as suas receitas? Ou deve o estado ser visto como um entidade toda poderosa que tem sempre direito a ir buscar mais impostos (mais “mesada”) aos contribuintes (os “pais” que trabalham)?

A insustentabilidade da dívida pública portuguesa

“Contas em familia” de Tiago Mendes (Cachimbo de Magritte)

“Os critérios de Maastritcht para o défice e a dívida tinham por inspiração assegurar sustentabilidade das finanças públicas. Basicamente, com défices de 3% e uma dívida de 60% do PIB, seria possível finanças sustentáveis… Mas esqueceram-se de por em parangonas qual a taxa de crescimento do PIB que sustentaria isto: 2%! 

Ora, Portugal, na primeira década do sec. XXI não cresceu 2% ao ano mas sim 0%. Ou seja, em 10 anos, crescemos, cumulativamente, menos 22% do que seria necessário para manter a sustentabilidade – e isto se tivéssemos tido défices médios de 3% do PIB! Que obviamente não tivémos. Mas quem é que deu importância a isto durante a era de Sócrates? Eram os velhos do Restelo que falavam do disparo da dívida, não era? Pois esses senhores e senhoras mereciam estátuas, por muito negativos e maus comunicadores que sejam.”