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Reductio ad Talibanum

Artigo do encenadorFernando Mora Ramos no Público (transcrito no 5 Dias)

“Um país que destrói o teatro e a dança faz o que os talibãs fizeram com os budas, uma barbaridade e coloca-se do lado do que as ditaduras fazem, destrói a possibilidade da prática da vivificação da memória, esse “perigo” que mostra que tudo muda e permite, no presente, convocar a tragédia reconhecida para que se evite.”

É cada vez mais ridículo o espectáculo oferecido pelas corporações que vêm reduzido o seu quinhão no orçamento de estado. Invariavelmente, ameaçam com as sete pragas dos Egipto caso alguém ouse tocar no seu privilégio. Descobrimos que este país só existe graças aos subsídios corporativos e que o seu fim nos tornará num estado totalitário. Devemos ser obrigados a paguar-lhes para que continuem a iluminar-nos com a sua sapiência e a livrar-nos de cair nas garras do fascismo.

A República Corporativa

Pinho Cardão

“Decretou solenemente a III República a extinção das corporações. Por ironia, e passo a passo, vem promovendo o seu apogeu”

Em frente, rumo ao estado corporativo

Parlamento aprova Ordem dos Nutricionistas

Uma República Perfeita

Artigo de Fernando Gabriel no Diário Económico

Ao descrever o governo republicano, Montesquieu recordava que em Atenas, quando um estrangeiro se introduzia na assembleia do povo, era punido com a morte, por procurar usurpar o direito de soberania.

Não deveria por isso causar espanto que a tentativa de intromissão da estrangeira Telefónica nos negócios de um Estado neo-republicano tenha terminado com o análogo a uma sentença de morte. Nem tão pouco deveria o veto governativo ser tratado como um acto de oportunismo: o Governo invocou a razão de Estado porque o partido socialista tem uma concepção mercantilista das relações internacionais e encara a acumulação de activos externos como um meio de preservação e expansão do poder político.

Nos regimes distinguidos por Montesquieu, o espírito das leis é condicionado pelo princípio de acção do regime. Numa república, o princípio dominante é a “virtude”, entendida como uma disposição emocional: o patriotismo, uma renúncia a si próprio que está na base de um compromisso irrevogável com a prossecução de uma igualdade substantiva. Na república tudo é instrumental para a preservação do patriotismo e da frugalidade que o sustenta, incluindo a educação e as leis. O governo republicano gere o Estado de forma corporativa, ou senhorial, policiando a sociedade em busca de qualquer vestígio do seu maior inimigo: a riqueza desigual, que corrompe a virtude republicana. Quando o comendador Berardo, uma ‘golden Cher’ do regime, exige que se “nacionalize tudo”, pergunta, céptico, aos seus compatriotas: ‘do you believe in life after love (for equality)?’. E o povo republicano reponde: “tudo pela pátria, nada contra a pátria”.

A busca da glória e de impérios ultramarinos introduziu o espírito de conquista no patriotismo, mas não mudou o carácter da república. Pelo contrário: o colonialismo tornou habitual a administração de Estados como posses senhoriais e a influência do mercantilismo acentuou a confusão entre governação e liderança. Bentham, na sua defesa confusa do liberalismo, exigiu o fim da “loucura colonial” um século antes da fundação do Financial Times, mas o constitucionalismo latino-americano rapidamente reverteu para o bolivarismo, uma outra forma de patriotismo republicano, e o “momento liberal” português durou menos de 1 ano -a segunda vigência da constituição de 1822 foi largamente simbólica. A governação portuguesa permaneceu autárquica e invejosa da proposta de liberdade intimada pela sociedade comercial, uma disposição resumida no desdém de Oliveira Martins por D. Pedro, o “moço imperador” criado fora da atmosfera apostólica peninsular e que, sob a influência do radicalismo utilitarista, ansiava fazer-se Bolívar do velho Portugal e mandar Bentham de torna-viagem para Lisboa outorgar a liberdade constitucional. Quase 2 séculos mais tarde, são ainda os líderes corporativos de ambos os lados do Atlântico, não os governantes de sociedades livres, que se “consultam” sobre fusões e aquisições, numa linguagem mercantil que seria reconhecida por Pombal.

Não sei o que pensaria Montesquieu do Portugal contemporâneo. Perplexo com tamanho mistério histórico e antropológico, talvez se interrogasse: como é possível ser-se português? Ou talvez revisse a sua certeza quanto à extinção das repúblicas na Europa dos Modernos e declarasse Portugal como a mais perfeita das repúblicas, uma arca de espectros que atravessam os tempos, indiferentes às intimações do mundo, medíocres nas suas magras riquezas, inquietantes na sugestão de uma incompreensível felicidade.