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Os coveiros dos “estado social”(*)

Estela Barbot no Diário Económico

“Quando me dizem que é com o Fundo Monetário Internacional que o Estado Social vai ser posto em causa – não. Foi agora que o Estado Social foi posto em causa, pelas pessoas que resolveram fazer estádios de futebol – dez quando chegavam oito – e tantas autoestradas”, frisou Estela Barbot, durante o debate “Portugal – Que Futuro?”, que decorreu no auditório da Renascença.(…)

Estela Barbot fez duras críticas aos responsáveis políticos portugueses, sem deixar de apontar que os actuais defensores do Estado Social foram os maiores responsáveis pelos “problemas estruturais” do país. “Temos de perder as ilusões. Com certeza que os tempos que vêm aí vão ser violentos”, acrescentou.

(*) Não que eu esteja preocupado com o fim do dito. Antes com a factura que nos legaram.

Esperem lá…

O cabeça de lista do PS pelo Porto, Francisco Assis, afirmou hoje que “seria muito mau para o País” uma maioria absoluta do PSD porque “significaria a consagração eleitoral de teses ultraliberais”,

Exacto. Os liberais (com ou sem prefixo) ainda destruiam o próspero e generoso estado social e levavam o país à falência.

Não façam confusão

Não é o “estado social” que está a implodir. Isto é um plano maquiavélico do PSD que consegue destruir o estado por meios telepáticos.

Quem me dera…

Assis acusa PSD de ter o propósito de destruir o Estado Social em Portugal

Ainda acredita no Pai Natal?

“Não há inocentes” de Nuno Garoupa (Jornal de Negócios)

A ruína dos portugueses é responsabilidade de um regime perdulário e de uma classe política que governou com demagogia e facilitismo durante os últimos 20 anos. Todos têm culpa. A começar pelos eleitores que votaram sempre alegremente em quem lhes prometia um nível de vida alemão, um Estado social sueco com a produtividade portuguesa.

Depois de Sean

Artigo de Fernando Gabriel no Diário Económico

Há alguns anos deixei de ver os canais da televisão generalista portuguesa. Troquei, com benefícios inequívocos, a dose nocturna de propaganda e servilismo por filmes como “Following Sean” (2005) exibido recentemente pelo canal Arte.

Trata-se de um documentário realizado por Ralph Arlyck, que regressou a São Francisco trinta anos depois de aí ter filmado Sean, uma criança de quatro anos a viver numa casa de Haight-Ashbury que também servia de abrigo a ‘speed freaks’ e aos participantes ocasionais no casamento “aberto” dos pais. Sean não distinguia os dias da semana, andava descalço e admitia com naturalidade mascar e fumar erva. Truffaut declarou-o o filho perfeito da contra-cultura. O filme, mais do que a satisfação da curiosidade sobre a vida ulterior da criança-selvagem, é uma reflexão melancólica, por vezes irónica, sobre as consequências políticas da revolução dos anos 60, do projecto de destruição da civilização em nome do retorno a um comunismo mítico, julgado mais apropriado para os filhos de Adão do que a sociedade comercial.

Uma das ironias do documentário resulta do contraponto entre as vidas de Sean e de Arlyck, que mostra como a reencenação da revolução para acabar com as divisões produz, sem surpresas, novas e mais iníquas divisões. Sean, oriundo da chamada “classe trabalhadora”, não conseguiu chegar à universidade: é electricista e Debbie, a sua irmã mais velha, é empregada de limpeza. Já Elisabeth, a mulher de Arlyck, conseguiu uma posição académica assim que o casal abandonou a vida ‘hippie’. Elisabeth pertence à elite intelectual que se entrincheirou na generalidade das universidades americanas e cuja capacidade formativa foi destruindo em nome do “progresso”, controlando politicamente o acesso e os currículos.

Um estudo recente de dois sociólogos de Princeton encontrou evidência estatística de discriminação no acesso universitário [1]: além do injustificável enviesamento favorável aos candidatos das populações ditas étnicas, um estudante branco de classe média ou alta tem uma probabilidade de admissão 3 vezes maior do que um estudante branco de origens humildes com qualificações idênticas. A elite de esquerda desconfia dos brancos pobres, do seu tradicionalismo e da resistência que opõem à agenda progressista e os descamisados como Sean, que por infortúnio ou incapacidade ficaram pelo caminho, também servem os desígnios ideológicos da esquerda se depositarem a culpa do seu insucesso aos pés do capitalismo.

Sean está destinado a suportar as adversidades do progressismo desde o berço até à cova. No futuro, aguarda-o um substancial dos impostos, necessários para suportar os compromissos de despesa não cobertos por activos da segurança social californiana, que só nos três maiores fundos públicos já atingem 500 mil milhões de dólares [2]. Os aumentos das pensões aprovados sob a pressão da rapacidade sindical exigiam uma capitalização bolsista surreal [3] para manter o equilíbrio actuarial: as “previsões” de 1999 assumiam que o índice Dow Jones atingiria os 25000 pontos em 2009. Está nos 10500.

Numa sequência próxima do final do filme, Arlyck e Sean filmam-se a si próprios em silêncio, no interposto vidro do carro, que, como na canção dos GNR, lhes devolve a imagem sem reflectir sobre o vazio incomunicante da desilusão utópica. Depois seguem por uma auto-estrada que atravessa o deserto, ladeada por fileiras de enormes ventoinhas, a anunciarem a aridez de um futuro de submissão a novas utopias, agora ecológicas. O futuro, afinal, que aguarda os que vierem depois de Sean.

A Batalha de Inglaterra

Artigo de Fernando Gabriel no Diário Económico

A um mês das eleições gerais britânicas, eleitores e observadores mais ou menos comprometidos pretendem saber o que pensam os candidatos a primeiro-ministro: David Cameron e Gordon Brown.

Cameron, impressionado pela campanha de Obama, decidiu abrir as portas da sua alma, num manifesto publicado pelo Telegraph na sexta-feira passada. Já se sabia que Cameron não era como a raposa do aforismo de Arquíloco, glosado por Isaiah Berlin (‘a fox knows many things, but the hedgehog knows one big thing’) mas a superficialidade do manifesto poderá ter decepcionado quem esperava uma apologia convincente da “grande ideia” que fará dele um ouriço na recta final de uma caminhada vitoriosa até Downing Street. Cameron confessa que estava mais interessado em desporto e “miúdas” e pensava pouco em política. Subitamente num Verão passado, uma viagem à URSS despertou nele um sentido ético e uma aversão profunda à burocracia. Era o embrião da Big Society a “grande ideia” de Cameron: um programa devolutivo contra o consenso político e culturalmente destrutivo que uniu o Thatcherismo ao New Labour, numa mistura que só aparentemente é incongruente de individualismo radical e autoritarismo estatal. Os conservadores já estiveram pior servidos.

Ao contrário de Cameron, a visão política da URSS deixou Brown de tal modo enternecido que continua a esforçar-se por criar a União das Repúblicas Socialistas Britânicas. Para salvar o Big Government da fúria eleitoral dos desiludidos, vale tudo, até comparar a economia britânica ao lesionado Wayne Rooney: Brown imagina que o seu keynesianismo destruidor da capacidade de criação de riqueza futura é a muleta necessária a uma economia “lesionada”. Nada de retirar a muleta muito cedo, aconselha. Claro que a comparação só será eficaz se os eleitores esquecerem que foram os Trabalhistas que destruíram a economia sob o peso do seu estatismo: entre 1999 e 2009, a despesa pública passou de 36,3% para 47,5% do PIB; em 2010 atingirá os 50% e se a tendência actual se mantiver, irá ultrapassar os 80% em 2015. Se Rooney tiver de jogar com metade da equipa às cavalitas, é bem capaz de se lesionar e se lhe explicarem que no futuro terá de carregar nove colegas no lombo fará o mesmo que os mais capazes e empreendedores: vai-se embora.

Cameron é a face do novo conservadorismo cívico, teorizado por David Willetts e Phillip Blond. Reconhece o efeito corrosivo do hedonismo da contra-cultura sobre a família e sabe que a transformação da polis num enorme falanstério prejudicou sobretudo os mais desfavorecidos; sabe que foi em nome do relativismo cultural que se destruíram as instituições intermédias, e que sobre essas ruínas Thatcher e Blair ergueram o Behemot do estatismo autoritário; sabe que o assistencialismo público auto-perpetua-se, mantendo os problemas sociais que se propõe resolver. Em suma: sabe que enfrenta uma sociedade desmoralizada e descapitalizada cuja reconstrução exige um amplo programa devolutivo. No entanto, se Cameron não for capaz de convencer os eleitores que o seu programa é muito diferente de um Thatcherismo recauchutado, perderá a batalha eleitoral. Nas margens, estão partidos como o BNP, à espera de conquistar pelo voto o que os seus antepassados não conseguiram pela força. Se o BNP emergir como partido charneira, estou certo que Brown dirá que foi um auto-golo -de Rooney.