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Sobre os atentados de Oslo

“Os Bárbaros” de Fernando Gabriel (Diário Económico)

A confusão dos noruegueses perante o “drama no paraíso” seria menor se compreendessem que a afluência não é um seguro contra a barbárie mas pode tornar-se numa das suas manifestações e que nem o mais conformista sistema de “socialização” consegue sublimar todos os instintos de violência. Anulado o sentido de transcendência, restam poucas vias para os descontentes. Uma é a via contemplativa, prosseguida por Thomas Mann e centrada no comprazimento estético e lânguido pela decadência identitária. Outra é a via da acção fanática, teorizada por Georges Sorel e centrada na afirmação do poder regenerativo da violência. Aliás, os que procuram utilizar as vítimas de Oslo como “mártires” do multiculturalismo, deviam notar que Sorel percorreu com à vontade os discursos marxista, anarquista e fascista: no fanatismo da violência, a ideologia é meramente circunstancial. É por isso que o reforço da pressão do sistema de “socialização educativa” anunciado pelo primeiro-ministro norueguês e apoiado pelas boas consciências é um convite à repetição de eventos semelhantes. Um cínico diria que esse é o objectivo: criminosos como o sr. Breivik servem o propósito útil de dissipar a entropia acumulada pelo “sistema-fechado” do conformismo e o horror perante as consequências da violência fanática proporciona o pretexto ideal para o avanço continuado da “visão” política

Oligarquia demérita

Artigo de Fernando Gabriel no Diário Económico

Nas semanas a seguir às eleições legislativas surgiram dois argumentos curiosos na discussão política. O primeiro envolvia uma distinção entre a “maioria política” decorrente da representação eleita e a “maioria social”: a primeira supostamente não corresponderia à segunda e era por isso destituída de “autoridade moral”.

Quando foi conhecida a composição ministerial do executivo, este argumento deu lugar a outro: faltava experiência e “peso” a alguns dos ministros escolhidos -na métrica política portuguesa, o mérito profissional oscila entre a imponderabilidade e a inconveniência. Estes argumentos surgiram por oportunismo, mas têm uma genealogia comum na história das ideias; uma genealogia que importa considerar, até porque constituem o fundamento de discursos contestadores da legitimidade do executivo para promover reformas no Estado.

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Obama e Osama

“A cabeça de Holofernes” de Fernando Gabriel (Diário Económico)

Obama declarou o mundo “um lugar mais seguro”. Obviamente não está e a conclusão não depende de conjecturas sobre presumíveis “retaliações”: é a intervenção militar sancionada por Obama no norte de África que está a tornar o mundo mais perigoso, ao terraplanar os destroços dos autoritarismos árabes, sem a mínima ponderação sobre os prováveis beneficiários do vácuo político. O chamado “levantamento árabe” devolve vastas extensões territoriais à condição de territórios tribais e na Líbia, tal como no Iémen, emerge uma das mais antigas e perigosas tradições do mundo islâmico: a combinação do espírito de revolta tribal com um sentimento de revivalismo religioso. As consequências da destruição na última década do remanescente do equilíbrio governativo nos territórios tribais recebido pelo Paquistão do Raj britânico é uma antevisão do Iémen e da Líbia da próxima década: durante algum tempo, as tribos rivais liquidar-se-ão mutuamente, até aparecer uma figura de autoridade religiosa -ironicamente, o termo árabe designador da virtude de sabedoria religiosa é baraka- que denunciará a impiedade dos tempos, unificará os beligerantes sob uma causa puritana e indicar-lhe-á a casa do inimigo a destruir.

A Turquia

“O novo turco” de Fernando Gabriel (Diário Económico)

Há um século, no meio do desastre final otomano e com a “ajuda” de demagogos progressistas, instituiu-se a imagem universal do “turco” – a má reputação tinha começado, imerecidamente, com a célebre expressão “o homem doente da Europa” do czar Nicolau I. O “turco” era sinónimo de ignorância, indolência, torpor erótico e uma resignação absurda perante o autoritarismo. Em 1980, morriam em média 20 pessoas por dia nos conflitos políticos na Turquia; há meia dúzia de anos, o país estava a contas com uma crise de inflação. Hoje é uma economia global e cosmopolita.

Cabe aos eleitores doutros países europeus aprender com o exemplo turco e exigir verdadeiras alternativas eleitorais. Se entender que não existem, recuse-se a ratificar as listinhas partidárias e procure não ser cúmplice na transformação do “português” no “turco” deste século

Sobre a intervenção na Líbia

“Do Céu que os protege” de Fernando Gabriel (Diário Económico)

O bombardeamento da Líbia é um acto cínico, demonstrativo da vulnerabilidade das democracias à imoralidade do oportunismo -o “futuro” anunciado aos líbios pelo cometa ardente dos mísseis que do céu os “protegem”. A coisa não se explica nem por cupidez nem por estupidez. (…)

Obama e Sarkozy aparecem unidos num virtuoso proselitismo bombista, mas não é da liberdade dos líbios que se trata: é da consciência da necessidade. Com uma aguda consciência da sua necessidade eleitoral, agravada pelos resultados das eleições locais, Sarkozy saiu disparado das boxes. Seguiram-se os ingleses e Obama, que estava em dia de ocidentalismo. Chamar-lhes descendentes de Gladstone é apoucar o intelecto do estadista vitoriano: são apenas populistas, antecipando que as acrobacias pós-heróicas nos céus da Líbia serão recompensadas com votos, porque este tipo de operações satisfaz o desejo de santidade de um certo eleitorado, que confunde o discurso moral com a pieguice humanitária e a guerra com a paz.

Bem podem algumas vozes ajuizadas lembrar que ninguém no chamado “mundo árabe” agradecerá a operação; que as histórias disseminadas por fanáticos do islamismo servirão para motivar inúmeros terroristas; ou que tem de ser a hipócrita Liga Árabe a assumir o ónus financeiro e militar de garantir a ordem civil na Líbia. A beatice internacionalista dá votos e isso basta para legitimar o bombardeamento “democrático” da Líbia. A derradeira ironia resulta do contraste entre a intenção e a realidade da ONU. Sendo o resultado funcional de um movimento internacionalista nascido da rejeição do cálculo paroquial de “interesses”, que se supunha levar inevitavelmente ao conflito, a ONU tornou-se há muito numa plataforma de corrupção e de autorização desresponsabilizada de intervencionismos arbitrários e estranhamente selectivos. O mundo seria um lugar mais seguro sem ela e a sua perigosa ilusão de “governança mundial”.

Os cínicos e os tontos

Artigo de Fernando Gabriel no Diário Económico

[A]s televisões e o YouTube deram ao “homem árabe” aquilo que nem Jacques-Louis David nem Eugène Delacroix puderam oferecer aos esboços do “homem universal” -o de 1789 e o de 1848, que animou a “Primavera dos povos”: uma narrativa construída em tempo real, dinâmica e com uma aparência de autenticidade. Não seria desavisado tratar essa narrativa com cepticismo: como recordou a historiadora Anne Applebaum, a televisão cria uma estória linear que pouco mais é do que ficção. Por exemplo, os acontecimentos no Bahrain são inteligíveis como o despertar da longa noite da autocracia, ou trata-se de mais um episódio do sectarismo religioso islâmico, num país-ilha com uma população maioritariamente xiita governada por uma monarquia sunita? Um eventual sucesso dos xiitas é um triunfo da “democracia” ou uma extensão geográfica do poder iraniano?(…)

Quando Mubarak abandonou o poder, tinha um livro de Raymond Aron sobre a mesa de trabalho, do qual traduzo um excerto: “não é o sufrágio universal, esse instituto político discutível e ulterior, nem o sistema parlamentar, que é um procedimento democrático entre outros, mas a liberdade, cujas condições históricas foram a dualidade dos poderes espiritual e temporal, a limitação da autoridade do Estado e a autonomia de instituições como as universidades”. Só um tonto não reconhece a inexistência de condições históricas de liberdade nos países árabes; só um tonto perigoso pode supor que organizações como a Irmandade Islâmica, que se propõe “islamizar o conhecimento”, oferecem garantias de manutenção de uma pax dei não segregadora. Quem estiver disposto a perceber o que se passa deve começar por desligar a televisão e aceitar que a “democracia” não chegará ao mundo árabe como os frangos ao supermercado: previamente acondicionada e pronta a cozinhar de acordo com a receita na embalagem.

Egipto: instituições e democracia

“O Martelo Universal” de Fernando Gabriel (Diário Económico)

Por grosso, a coisa resume-se à regurgitação do credo revolucionário de Thomas Paine. (…) [O]s repetidores actuais dispensam-se de maçadas e declaram a democracia como o único sistema de governo, intrínseca e irrestritamente bom. Pouco lhes importa que na Inglaterra, onde Paine nasceu, a “universalização” da democracia foi o resultado de quase um século de reformas políticas graduais; ou que os EUA (…) tenham nascido como projecto republicano, só posterior e gradualmente democratizado. Não lhes ocorre, ou não lhes interessa, considerar as consequências potencialmente desastrosas da súbita introdução da “democracia” num país sem qualquer simulacro verosímil de Estado de Direito e em particular, sem um poder judicial independente e imparcial.(…)

Contrariar os desejos da turba, ou mostrar cepticismo quanto à prioridade da “democracia”, assegura imediatamente a condenação moral de “colaboracionismo” com a autocracia do senhor Mubarak, uma condenação sem recurso já aplicada às políticas externas dos países ocidentais. Rousseau e Paine também supunham que a política externa era uma “conspiração” de governos corruptos contra “os povos”, e, à semelhança de Trotsky, não lhe viam qualquer utilidade depois do “triunfo revolucionário”. As suas réplicas actuais desdobram-se em argumentos engenhosos para demonstrar a inocuidade prospectiva da Irmandade Islâmica e a desnecessidade de qualquer política externa: basta abençoar a democratização imediata do Egipto e o mundo árabe vai de si mesmo. (…) Emancipar o Egipto exige dotar o país de um Estado de Direito que faculte aos egípcios o acesso legal à propriedade, uma tarefa complexa que necessita do apoio de uma diplomacia ocidental cuidadosa e sofisticada. Insistir na democracia sem cuidar desta e de outras questões institucionais dará péssimo resultado; argumentar que a democracia encarregar-se-á de resolver os problemas, oscila entre a desonestidade e a ignorância, mas como dizia Mark Twain, quando só se tem um martelo, tudo se parece com um prego.

Santa aliança

Uma aliança anti-sioista em França?

Ler, a propósito, “Um Futuro” de Fernando Gabriel.

Os pecados da riqueza

Artigo de Fernando Gabriel no Diário Económico

Em 2010, as consequências do intervencionismo estatal desbragado dos últimos anos tornaram-se evidentes: uma crise generalizada de dívida soberana e uma série de economias incapazes de retomar o crescimento económico, sufocadas pelas restrições de crédito, por cargas fiscais inadmissíveis e por um autoritarismo regulatório fundado na crença de que a acumulação de riqueza é perniciosa e imoral.

Esta combinação catastrófica de políticas promete conseguir algo de impensável: reduzir os padrões de bem estar de forma permanente, impondo ao mesmo tempo limites dificilmente removíveis à autonomia individual.

Até agora, nenhum político com responsabilidades de governação ousou admitir que esse infortúnio é o objectivo e não o resultado da união entre a incompetência e a iliteracia económica. (…) A doutrina assenta num pressuposto fundamental: as sociedades ocidentais atingiram níveis “suficientes” de rendimento e a acumulação adicional de riqueza não é benéfica e constitui a origem de quase todos os males contemporâneos.

O custo da gratuitidade das novas tecnologias

“O Fim da Privacidade” de Fernando Gabriel (Diário Económico)

Tal como a difusão dos ‘scanners’ corporais é facilitada pela recusa geral de medidas que possam ser consideradas discriminatórias, também não é possível inocentar os consumidores, que pretendem ligações mais rápidas mas recusam-se a pagar pelo aumento da qualidade do serviço sob a forma de preços mais altos. Os fornecedores e companhias de marketing encontraram uma solução: compensar o diferencial entre receitas directas e custos através de receitas de publicidade. O preço “escondido” é a perda de privacidade.(…) [H]á uma escolha a fazer entre a protecção da privacidade e a adesão incondicional aos brinquedos tecnológicos e essa escolha revela se pretende ser tratado como adulto ou como criança. E as crianças não devem ter segredos.