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Wikileaks, uma opinião divergente

“Anos de Chumbo” de Fernando Gabriel (Diário Económico)

Aos que celebram o embaraço dos poderosos, é necessário recordar que estão a celebrar a dissolução da privacidade, a entronização do fanatismo da transparência, que exige submissão total a todos e em todo o lado: nos aeroportos, na sua casa em frente ao computador, no Facebook. As WikiLeaks são o seu símbolo e desfecho lógico, uma massa caótica de vestígios, ruído branco, música para aeroportos nos anos de chumbo da pós-democracia

Os “soixante-huitards” e a sua herança

“Adeus minhas concubinas” de Fernando Gabriel no Diário Económico (em versão integral no Gerontion)

Relembrando as barricadas, Cohn-Bendit caracterizou a revolta como uma reacção justificável contra uma sociedade “que procura esmagar o indivíduo, forçando-o a engolir as mesmas mentiras”. Eis um slogan perfeitamente adaptável à revolta da direita libertária contemporânea contra o chamado “estado social”, o monstro legislativo que constitui a principal herança política da geração de soixante-huitards e da sua pressão para o alargamento sistemático das fronteiras do político. Em 1968, tal como hoje, a China apresentava-se como uma alternativa superior para uma geração que, ironicamente, depende agora das poupanças da China capitalista para viver a indulgência da “imaginação ao poder” até ao fim. Deixam uma sociedade afundada na anomia e uma economia depauperada pelo confisco. E depois deles, o dilúvio da dívida.

O eco-fascismo

“O Novo Mantra Ecologista” de Fernando Gabriel (Diário Económico)

Este autoritarismo ecologista é, no essencial, semelhante ao autoritarismo fascista: se no fascismo a autoridade prescritiva da conduta política advém do carisma do líder, no ecologismo ela resulta da fé messiânica na revelação da salvação ambiental. Em ambos os casos, a autoridade funciona como uma injunção ético-política à qual todos se devem submeter. Tal como no fascismo, os ecologistas não admitem contestação racional às suas posições. A discussão, assente nos pressupostos da racionalidade científica ou no carácter prático do confronto ideológico, não é só desnecessária – é contraproducente, porque retarda a acção política “urgente”. Daí a irrelevância política das “alterações climáticas” ou da “biodiversidade”: são apenas pretextos para a concentração de poder em organizações inimputáveis e para a legitimação de um vasto programa extorsionário posto em marcha por uma coligação de ideólogos, académicos e burocratas. Aliás, sem menosprezar o batráquio multicolor que ilustrou diversas “notícias” recentes sobre as ameaças à biodiversidade, a espécie que esta coligação ameaça de extinção é o homem livre ocidental, para quem a governação era a arte da contingência e não a imposição de um plano político que nega a autonomia moral e reduz todos à condição de bichos.

Traduções selvagens

“Arranje uma sopinha” de Fernando Gabriel no Diário Económico.

A avaliar pelo escárnio e maldizer que por aí vai a propósito do “inglês técnico” do primeiro-ministro, dir-se-ia que vivemos num país culturalmente sofisticado, onde o conhecimento linguístico e o cuidado na conversão entre diferentes idiomas são a norma.(…)

As traduções cinematográficas, que se suporia mais cuidadosas, vão pelo mesmo caminho das televisivas. Por exemplo, como se não fosse suficiente ver a obra de Evelyn Waugh transformada numa ordinarice pegada, o tradutor de Brideshead Revisited (2008) decide participar no desastre dando um contributo de originalidade que ninguém lhe encomendou. Quando Charles Ryder recebe uma mensagem de Sebastian Flyte, garantindo estar “gravemente ferido”, decide regressar para junto do amigo e anuncia a decisão ao pai, que lhe responde com ironia: ‘well, I shall miss you, my boy, but don’t hurry back on my account’. O tradutor converte a ironia em materialismo: “não venhas a correr para o meu dinheiro”. O motivo do equívoco é penosamente evidente, ou ‘feathery obvious’, como diria o tradutor, a quem apetece responder por interposto Sebastian: ‘my dear, I should like to stick you full of barbed arrows like a p-p-pin-cushion’.

Mitos da Iª Guerra Mundial

“A Grande Guerra” de Fernando Gabril no Diário Económico (e em versão integral no Gerontion)

Na semana passada os jornais noticiaram o “fim” da I Grande Guerra, com o pagamento pela Alemanha da última parcela das reparações de guerra. Referindo-se ao assunto, o Daily Telegraph resumiu de forma clara um mito duradouro: as reparações de guerra impostas à Alemanha constituíram um fardo “insuportável”, cujas consequências económicas “determinaram” a ascensão de Hitler e a eclosão da II Guerra Mundial. Este mito concorreu para a entronização intelectual de Keynes, promovida por uma historiografia ideológica que o representou como o único a antecipar as consequências desastrosas de uma paz que exigiu à Alemanha reparações “impossíveis” de pagar e “humilhantes”. Continuar a ler

Ed Miliband

“Ed Fabius Miliband Maximus” de Fernando Gabriel (Gerontion)

[A] descrição de Ed Miliband como um representante do sindicalismo trabalhista não é coerente com o seu currículo político. É verdade que é um protegido de Tony Benn e de Neil Kinnock, o que lhe assegura impecáveis credenciais junto da ala sindical do partido. Por outro lado, é também um ex-aluno da LSE, o berçário intelectual da Fabian Society, onde, aliás, fez questão de apresentar a sua candidatura à liderança trabalhista. Além disso, na passagem pelo governo de Brown, Ed Miliband distinguiu-se pela defesa de um amplo programa de acção política a pretexto das “alterações climáticas”, um exemplo claro de racionalismo fabiano em acção. Isto significa que a caracterização de Ed Miliband com base na oposição dual entre sindicalistas e intelectuais é inconsistente: o novo líder trabalhista usou a sua “filiação” ideológica no movimento sindical para estabelecer uma base de apoio interna, mas conquistada a liderança partidária não é forçoso que prossiga uma agenda típica dos anos 70: tal como Harold Wilson, é possível que faça uma vénia circunstancial à extrema esquerda sindical, sem necessariamente comprometer o centro esquerda, vital para a elegibilidade nacional. Pode até combinar o estatismo que proporciona empregos à elite trabalhista nas organizações governamentais prestadoras de “serviços” que interessam sobretudo aos prestadores, com uma nova agenda de regulação de mercados que transfira poder negocial para os sindicatos. Daí que o alivio de alguns conservadores perante a eleição de Ed Miliband seja, no mínimo, prematuro. Quem programou a execução política do irmão David com a frieza e o método com que Ed o fez, será certamente um líder temível da oposição. Acresce que a coligação que apoia o governo de Cameron não é indestrutível e os tempos são propícios a demagogos: Ed Miliband pode muito bem provar a Blair, um dos mestres da demagogia, que está enganado.

A receita certa para o crescimento económico

“Um argumento gasto” de Fernando Gabriel (Gerontion)

Num importante artigo publicado hoje pelo The Wall Street Journal, Alberto Alesina avalia empiricamente o argumento neo-keynesiano da suposta necessidade de aumento da despesa pública, de forma a contrariar a redução cíclica da despesa privada e manter, ou até aumentar, a taxa de crescimento económico. A partir de uma amostra de 107 programas de ajustamento fiscal e 91 programas de expansão fiscal(*) promovidos em 21 países da OCDE entre 1970 e 2007, a evidência empírica disponível permite rejeitar claramente a hipótese neo-keynesiana. Aliás, sugere precisamente o oposto: a chave para o estímulo do crescimento económico reside em cortes permanentes da despesa pública.

Recomendo a leitura integral do post do Fernando Gabriel e do artigo de Alberto Alesina.

A Turquia

“Ergenekon IV” de Fernando Gabriel (Diário Económico)

Para quem gosta de histórias simples, a política turca é um assunto pouco recomendável. As banalidades da sociologia política, como a oposição entre o “secularismo” e o “islamismo” não são mais do que âncoras para a ignorância, sobretudo porque o “kemalismo”, a ideologia que se reclama herdeira da acção política de Atatürk, é uma autêntica religião civil, criada para o engrandecimento do Estado e definidora de uma cidadania republicana submissa e dependente. Atatürk foi reduzido a profeta fundador da autocracia, de tal modo que as passagens mais liberais dos seus escritos foram sistematicamente censuradas desde 1938.

É perfeitamente natural que alguns liberais turcos se tenham aproximado do AKP, não só porque a religião islâmica constitui um elemento essencial de uma identidade otomana da qual os dirigentes do AKP se reclamam herdeiros, falsamente imaginada como cosmopolita e tolerante, mas sobretudo porque o republicanismo kemalista não gerou um constitucionalismo moderno, assente no reconhecimento de direitos humanos e na garantia de um governo limitado sob a lei. A questão crucial na Turquia consiste em saber quais são os verdadeiros desígnios políticos do AKP. Até agora, a prossecução de uma agenda liberalizante permitiu-lhe manter o apoio do centro eleitoral, mas receio que Arif tenha razão e o objectivo não seja reformar o Estado mas tão só apoderar-se dele, transformando uma autocracia sob tutela militar numa autocracia baseada na jurisprudência corânica, até porque a organização de Fethullah Gulen tem uma enorme e inquietante influência sobre o AKP e a vitória no referendo abrir-lhe-á as portas à infiltração no aparelho judicial.

A versão integral (não truncada por razões editoriais) do artigo pode ser lida aqui.

A autocritica de um pós-estruturalista

Fernando Gabriel sobre este artigo de Manuel Maria Carrilho

A melhor forma de se começar a compreender o significado complexo da “civilização” é entendê-lo enquanto processo que afasta as sociedades de forma inequívoca de uma condição de barbárie –uma distinção dicotómica central nas reflexões filosóficas de Hobbes ou Rousseau. Ora uma das consequências fundamentais do pós-estruturalismo, com o seu anúncio grandiloquente (e oco) do “fim da grande narrativa” e da proclamada equivalência entre diferentes formas de organização social e política (diferentes “jogos linguísticos”, diversos na sua codificação das regras mas impossíveis de hierarquizar) é precisamente a negação da dicotomia entre civilização e barbárie. No essencial, a desconstrução hermenêutica da narrativa histórica enquanto processo direccional e linear de sistemático progressismo acabou por levar à adopção de formas de relativismo, epistemológico e cultural: se a narrativa histórica não revelava “progresso” e nenhum conceito de verdade histórica era aceitável (um enorme e perigoso disparate) então, como incessantemente reafirmaram Lyotard, Said ou Foucault, a história não era mais do que uma narrativa poética, apenas tocando tangencialmente a realidade para erguer o manto ideológico diáfano que encobre a sistemática “opressão” política ocidental.

Evidentemente, quem andou durante anos – muitos anos – na companhia intelectual dos mais acérrimos críticos da civilização ocidental, como o “lugar da catástrofe” ou o centro opressor de um mundo de culturas diversificadas e igualmente dignas de reconhecimento, não pode ter agora o descaramento de lamentar a decadência civilizacional do ocidente, mas também não pode evitar que os críticos lúcidos, como o Miguel Morgado, lhe apontem o cinismo da “fadiga” como metáfora para o impronunciável.

O governo de eunucos

Artigo de Fernando Gabriel no Diário Económico

A “democracia” enquanto termo descritivo da autoridade da governação identifica um arranjo constitucional, conferindo uma qualidade concreta a essa autoridade através da identificação dos ocupantes do governo: a demos.

É esse o sentido da conhecida síntese de Lincoln: ‘government of the people, for the people, by the people’. Nas reflexões de Bodin, Hobbes ou Rousseau, os arranjos constitucionais definidores da obrigação política não foram confundidos nem com o aparato de poder instrumental para a governação, nem com o conteúdo substantivo da governação, mas John Mill iniciou uma mudança fundamental ao identificar a “bondade” do governo com as consequências das políticas prosseguidas. O governo “democrático” tornou-se numa máquina utilitária de satisfação de necessidades e distribuição de benefícios que satisfaz, presumivelmente, as preferências da “maioria”.

Se a democracia no sentido constitucional não pode, por definição, ser totalitária, o mesmo já não é garantido sobre a corrupção hoje identificada como “democracia”. A sugestão de que as democracias contemporâneas estão a tornar-se totalitárias não é nova, mas poucos filósofos têm tratado o assunto com a seriedade que ele exige: Kenneth Minogue é uma excepção e no seu livro mais recente, “The Servile Mind” (New York, 2010) reflecte sobre a nacionalização democrática da vida moral. O princípio deste projecto político-moral foi resumido num proeminente ‘slogan’ dos anos 60: o pessoal é político. As práticas, as opiniões aceitáveis, o modo de educação dos filhos, a conduta sexual ou os hábitos alimentares são crescentemente submetidos à aprovação colectiva e o aparato de poder do Estado é utilizado para a imposição da conformidade com o ideal igualitário, produzindo uma homogeneização destruidora da tradição de criatividade do ocidente. É este ambiente que explica a naturalidade com que a modelo Giselle Bundchen exigiu recentemente a obrigatoriedade legal da amamentação. Nem os planeadores comunistas se atreveram a tanto, mas nas democracias totalitárias é mais provável que se discuta o “impacte” da medida do que se condene a obscenidade da sugestão.

Sob a governação democrática a conduta moral foi substituída por uma corrupção sociológica, promovida por “peritos” na recomendação de “comportamentos” e na avaliação de “resultados”. O projecto “democrático” assenta na negação da oposição maquiavélica entre considerações de interesse de Estado e considerações morais: não só não são incompatíveis, mas são, afirmam os defensores do projecto, complementares. A salvação do planeta, a extinção dos males da fome e da doença, a paz perpétua ou a maior felicidade do maior número são diferentes racionalizações éticas deste imperativo político. O potencial atractivo da causa atrai a simpatia geral e desperta em muitos um ardor beato que nenhuma quantidade finita de recursos centralizados sob o comando do poder político é capaz de satisfazer. A atribuição de um sentido moral ao projecto condena a dissensão política e fomenta o culto do poder. Em consequência, a participação na associação política perdeu as características da cidadania e deu lugar ao “utente” passivo, o utilitário vulgar, o “porco satisfeito” que John Mill temia mas a quem serviu de parteira ideológica. Destruída a ficção representativa e evaporada a responsabilidade política com a proliferação de aparatos de poder, infra e supra Estados, que fazem política sem qualquer vislumbre de legitimidade, a máxima de Lincoln precisa de actualização: a democracia é hoje o governo de eunucos, pelos eunucos e para os eunucos.