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Quem te manda a ti sapateiro tocar rabecão (5)

O mal de repetirmos sentenças alheias em assuntos nos quais, clara e minimamente,  não dominamos é que arriscamos a ser repetidores de falácias grosseiras. Este risco é potenciado quando a fonte utilizada também está claramente fora da sua “zona de conforto”.

Um caso exemplo do que acima referi é o deste blogger que “simplesmente” se limita a repetir este artigo de Ferreira Fernandes sobre uma descida de notação da dívida grega em 1931 pela Moody’s que teria causado grandes infortúnios ao país e conduzido, anos mais tarde, à ditadura fascista do General Metaxas (que curiosamente enfrentou e derrotou a Itália fascista quando esta o tentou invadir em 1940/41). Ora Ferreira Fernandes pode ser um bom cronista mas se quiser falar sobre temas económicos necessita verificar a veracidade dos factos que relata e dedicar-se ao estudo da questão.

Aproveito para esclarecer os factos em causa. Um rápida pesquisa sobre o tema na wikipedia permite clarificar a questão. Leiam os dois curtos parágrafos sobre o período temporal em questão (“Dichotomization of the drachma” e “The Great Depression”).  Nos anos 20/30 do século passado (tal como agora) a Grécia não necessitou da “ajuda” das agências de notação para destruir a sua moeda e a economia. Os gregos mostram ser capazes de sozinhos darem boa conta do recado. E recordo que bastava recordar a mais que conhecida conjuntura económica internacional do período histórico em causa (aos anos30) para levantar suspeitar quanto à tese de Ferreira Fernandes.

Que este episódio nos sirva a todos de lição. A começar por mim.

I told you so

Após muita resistência consta que o BCE irá finalmente aceitar um “haircut” na dívida grega que detém.  Três considerações.

Primeiro. Segundo cálculos efectuados por vários analistas para colocar a dívida grega num patamar sustentável a reestruturação terá de eliminar cerca de 70% do montante em dívida. Portanto, mesmo com a participação do BCE (que dados os montantes de dívida que detém nunca poderia ficar fora deste processo) qualquer valor significativamente mais baixo não será credível para o mercado. Digo eu.

Segundo. Uma vez que duvido que os títulos gregos estivessem contabilizados a valor de mercado no balanço do BCE isto implicará uma importante “rombo” nas contas do banco central europeu.  Quem irá participar num eventual aumento de capital? Pois.

Terceiro. Ainda seja fundamental a reestruturação da dívida grega não percebo os festejos deste blogger. Se o acesso aos mercados já era difícil agora ficará impossível. A não ser que descubram entretanto uma fonte inesgotável de riqueza isto vai implicar (ainda) mais provações para o povo grego. Se o próprio BCE se arrisca a perder o dinheiro que emprestou à Grécia que é que lhe vai emprestar dinheiro agora? Eu não.

Taxation without representation

Gráfico de João Miranda. Do mesmo autor, ver também “No spending without taxation”

Então?

Espanta-me que o pessoal que andou a protestar contra a anulação do referendo grego e a forçada demissão de Papandreou não demonstra a mesma solidariedade com Silvio Berlusconi.

Ainda acerca do referendo grego

Não podia estar mais de acordo com que o Nuno Ramos de Almeida escreve no 1º parágrafo deste artigo. A chamada “construção europeia” é obra de elites supostamente esclarecidas e, preferencialmente, outorgado ao povo por decreto. Porém, discordo em absoluto dos restantes argumentos.

A politica económica da Grécia é frequentemente referendada em eleições e escolha dos eleitores sempre foi o despesismo. Provavelmente, o que nunca imaginaram foi que chegaria o momento de pagar a conta. Mesmo que venha a ser acordado uma reestruturação que coloque a dívida grega num nível sustentável a austeridade é sempre inevitável. Até porque a Grécia vai ficar muitos e bons anos sem acesso aos mercados de crédito e vai ter um longo e penoso trabalho para os convencer que daquela vez tenciona mesmo honrar as suas dívidas. Os gregos até podem decidir que não querem a austeridade imposta pelo exterior. Só que isso levará à interrupção no financiamento externo e implicará um ajustamento muito mais rápido e violento. Um terreno bastante fértil para “gerar [a] injustiça, o ódio e talvez a guerra“.

O irresponsável

Com uma proposta extemporânea e inútil para referendar um dos muitos acordos que assinou, George Panpandreou conseguiu levar ainda mais fundo a péssima reputação da Grécia junto de credores e financiadores cujo acordo o estado grego desesperadamente necessita. Por outro lado, estes ficam com o ónus de impedirem o povo grego de expressar a sua vontade. O que nunca explicou aos seus eleitores foi a forma como estes iriam sobreviver sem ajuda externa enquanto decorriam os trâmites legais para a realização do referendo. A situação já era desesperada e Panpandreou resolveu lançar uma significativa quantidade de gasolina para a fogueira.

Como seria de esperar (3)

Os governos da zona euro ameaçam congelar a sexta tranche de ajuda à Grécia.

A realização do referendo coloca em causa o último acordo com bancos, FMI e UE. (para já não falar da extrema dificuldade que os gregos têm em cumprir o que acordam). Será esperavam que as outras partes continuassem a cumprir?

Como seria de esperar (2)

A directora do Fundo Monetário Internacional (FMI) afirmou nesta quarta-feira que a sua decisão sobre o empréstimo da instituição à Grécia depende do resultado do referendo que Atenas pretende lançar sobre o plano anti-crise da zona euro.

Como seria de esperar

Bancos alemães suspendem acordo para o perdão da dívida grega

Está-se mesmo a ver que os analistas do costume vão aproveitar para sublinhar o carácter anti-democrático dos mercados.

Sobre o referendo grego

“Roleta Grega” de Pedro Bráz Teixeira (Cachimbo de Magritte)

Uma dívida de 120% do PIB é muito dificilmente sustentável, mas ter uma dívida desta dimensão depois de uma reestruturação (que conduz a taxas de juro muito mais elevadas) é absurdo, é uma mera perda de tempo e dinheiro até à próxima reestruturação da dívida.(…) Convém ainda esclarecer que a recusa das condições de ajuda externa não vai dispensar a Grécia de medidas de contenção orçamental, muito pelo contrário. Ao ser forçada a uma reestruturação da dívida muito mais intensa, não haverá qualquer tipo de financiamento disponível, pelo que o défice sem juros (défice primário) terá que ser totalmente eliminado no imediato.

“Surpresa: A Grécia Ainda é um País Soberano” de Filipe Faria (O Insurgente)

Não há saída indolor deste processo de dívida indomável; os custos do processo são incalculáveis. Dizer que esta ou aquela solução terá maiores ou menores custos é sempre um exercício especulativo (que normalmente revela o grau de eurofilia do especulador). Contudo, o que não é especulativo é que ao dizerem que não neste referendo os gregos podem recuperar a liberdade para organizarem (ou desorganizarem) a sua casa como querem, sem imposição externa e sem depender de fundos de contribuintes de países terceiros. Se os gregos querem contrair dívida, fugir aos impostos ou comprar carros de luxo a rodos é algo que a eles lhes diz respeito, desde que internalizem as consequências. É esse o preço da responsabilidade que é indissociável da liberdade.