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O “haircut” grego

Após vários meses de negação os líderes da UE finalmente acordaram a reestruturação da dívida grega. Mas será suficiente? O que foi acordado foi o perdão de 50% da dívida privada. Segundo o Público esta “ascende actualmente a 210 mil milhões num total de 350 mil milhões de euros”. Contas simples, serão perdoados 105 mil milhões de euros o que equivale a 30% da dívida total. Várias estimativas apontavam para valores na ordem dos 60-70% da dívida total. Isto é, duvido muito que fiquemos por aqui.

Em cada banqueiro, um comediante

O presidente do BPI, Fernando Ulrich, discorda do eventual perdão parcial da dívida soberana grega, advogando que tal decisão significa “reconhecer que a dívida soberana dos países da Zona Euro perde o estatuto de activo sem risco

O desespero dos banqueiros com a perspectiva da reestruturação da dívida grega não devia surpreender ninguém. Podia era assumir um forma mais digna e menos ridícula. Reparem que para Ulrich é o reconhecimento da realidade. Que a dívida grega tenha ultrapassado a estratosfera e não exista forma de ser redimida parece ser um pormenor secundário. Aceitar o “haircut” implica também que os bancos reconheçam que andaram a comprar “lixo” demasiado tempo e sem se preocuparem grandemente com as implicações. Alguém haveria de pagar o seu laxismo. Reparem que para o presidente do BPI nada disto terá a ver com a exposição do BPI à divida grega. Pois.

On Fantasy Island

O ainda presidente do BCE, Jean-Claude Trichet, acredita que a Grécia conseguirá evitar um “default” se executar as reformas acordadas com os parceiros europeus.

Adivinhem quem vai pagar a reestruturação grega?

A propósito de um recente estudo do Open Europe sobre a sustentabilidade da ajuda à Grécia, Daniel Hannan especulasobre as razões que levam à demora da UE e BCE em aceitar a necessária reestruturação da dívida grega. O quadro supra pode-nos ajudar a entender a razão. Essencialmente, o efeito do pacote financeiro do FEEF/FMI será proceder à alteração da estrutura dos credores. Os grandes beneficiários serão as instituições financeiras (em especial as estrangeiras) que verão as sua exposição substancialmente reduzida em detrimento das entidades públicas (UE, BCE e FMI). O mesmo é dizer que os bancos que estão a beneficiar de um novo “bailout” à custa dos contribuintes. Mais uma vez a irresponsabilidade do sector bancário que alimentou as políticas suicidas nos países periféricos sairá recompensada. Tal como nota Hannan, esta operação de substituição de dívida vai demorar algum tempo pelo que, entretanto, a dívida grega (e a conta dos contribuintes) irá crescer mais um pouco.

Sobre a Grécia

Para quem se quiser inteirar acerca da razão da recente (melhor dizendo, continuada) crise grega aconselho a leitura deste Q&A de Edmund Conway no Daily Telegraph. Não restam grandes dúvidas que o melhor caminho a seguir será preparar urgentemente uma reestruturação ordenada da dívida grega (obrigando os credores a assumir parte dos custos) antes que sejam atingidos por um default bem mais grave. Contrariamente à tese popularizada pela extrema-esquerda, a reestruturação não é o “fim da história” nem permite o fim da austeridade (*). Até porque às já impossíveis condições de financiamento vão piorar ainda mais pelo que continua a ser necessário o programa de assistência financeira da UE/FMI. E vai continuar a ser necessário colocar as finanças do estado grego num caminho sustentável e mesmo com a reestruturação o stockde dívida acumulado vai continuar a ser colossal. Aliás, tal como Conway (e não só) sugere provavelmente a reestruturação não será suficiente e assistiremos à expulsão do Grécia da zona euro readoptando uma moeda (bastante) desvalorizada. O empobrecimento vai ser brutal. Tal como o enriquecimento era artificial.

Em Portugalficaremos (espero) pela reestruturação e pelo rigoroso programa de ajustamento. Não sendo tão mau como as provações que esperam os gregos não vai ser mesmo fácil.

(*) A este propósito leiam o Impertinências.

A inevitável reestruturação grega

“The ECB’s Three Mistakes in the Greek Debt Crisis” de Jeff Frankels

By now just about everybody agrees that the European bailout of Greece has failed: The debt will have to be restructured. As has been evident for well over a year, it is not possible to think of a plausible combination of Greek budget balance, sovereign risk premium, and economic growth rates that imply anything other than an explosive path for the future ratio of debt to GDP.(…)

The third mistake was the failure to send Greece to the IMF early in the crisis, before Greek interest rates went to 600 basis points (…). By January 2010 the need for the [Intenational Monetary] Fund should have been clear. Rather than going into shock, leaders in Frankfurt and Brussels could have welcomed the Greek crisis as a useful opportunity to establish a precedent for the long-term life of the euro. The idea that such a problem would eventually arise somewhere in euroland cannot have come as a surprise. After all, why had the architects written the Maastricht fiscal criteria and the No Bailout Clause (1991) and the Stability & Growth Pact (1997)? Skeptical German taxpayers believed that, before the project was done, they would be asked to bail out some profligate Mediterranean country. European elites adopted the fiscal rules precisely to combat these fears. (…)

But the reaction of leaders in both Frankfurt and Brussels was that going to the [Intenational Monetary] Fund was unthinkable, that this was a problem to be settled within Europe. They chose to play for time instead, to treat insolvency as illiquidity. Against all evidence — despite a decade of SGP [em português, o PEC] violations — they still wish to believe that they can impose fiscal discipline on member states. Despite two decades in which citizens of Germany and other European countries have expressed clearly that they do not share their leaders’ enthusiasm for Economic and Monetary Union, the latter apparently still wish to believe that further progress to political and fiscal union is possible. The emu has long since become an ostrich, burying its head in the sand.

It turned out that the German taxpayers were right all along. How, in light of that democratic deficit, can anyone think that Europe is ready for a transfer union?

Reestruturação da dívida grega?

S&P volta a cortar “rating” da Grécia e diz que deverá ser necessário reestruturar dívida. (…) A S&P, no relatório citado pela Bloomberg, defende que serão necessárias reduções de 50% ou mais no valor principal da dívida para a tornar sustentável.

De saída?

Segundo o Der Spiegel os ministros das finaças da zona euro e a comissão vão reunir de emergência para discutir a ameaça da Grécia de abandonar o euro e reintroduzir a suá própria moeda.

Brain drain

According to a survey published last month, seven out of 10 Greek college graduates want to work abroad. Four in 10 are actively seeking jobs abroad or are pursuing further education to gain a foothold in the foreign job market. The survey, conducted by the polling firm Kapa Research for To Vima, a center-left newspaper, questioned 5,442 Greeks ages 22 to 35.

Não será de espantar que em Portugal esteja a ocorrer um fenómeno similiar.

Frição e o Vazio

Artigo de Fernando Gabriel no Diário Económico

Há duas décadas que o “aprofundamento”, i.e., a transformação da União Europeia numa união económica e política, avança com pompa auto-congratulatória.

Faltava aos europeístas uma ocasião para tornar o seu desejo de poder numa possibilidade prática, através da concentração de amplos recursos; uma crise, que permitisse reclamar o reforço da centralização em nome da superior necessidade de resolver um ‘problema’, tão dominante e urgente na sua “solução” que todo o cepticismo e precaução devem ser abandona’dos. A evolução da crise financeira para uma crise de dívida soberana proporcionou essa ocasião. Com uma rapidez que deixaria Heinz Guderian surpreendido, as regras que impediam os estados europeus de ser responsáveis pelas dívidas de outros estados, ou a proibição de envolvimento do BCE no financiamento de estados, foram reescritas ou simplesmente ignoradas.

Tendo em conta a ambição de poder europeísta, as tentativas de fundamentação são paradoxalmente escassas. Em parte porque a generalidade dos crentes imaginam a união política como um fatalismo histórico, uma consequência linear da integração económica; em parte porque o processo de acumulação de poder tem uma aparência auto-evidente. As raras justificações da necessidade do “aprofundamento” apresentam-no como a forma de superação do problema de falta de legitimidade democrática e como a única conclusão possível de qualquer reflexão que privilegie o altruísmo europeísta, por oposição aos “egoísmos” nacionalistas.

Sucede que na UE nada o é. A aparência de altruísmo europeísta esconde um despudorado interesse nacional: o “salvamento” da Grécia foi apressadamente montado para evitar perdas aos bancos alemães e franceses, os verdadeiros beneficiários. As consequências da incontinência orçamental da Grécia e de outros países com governação medíocre só podem ser adiadas, nunca evitadas: não só a reestruturação de algumas dívidas é inevitável, como o recurso ao aumentos de impostos no curto prazo reduz ainda mais o crescimento económico e portanto as possibilidades de reequilíbrio orçamental a médio prazo. O europeísmo oferece a estes estados uma escolha: ou aceitam a condição de neo-colónias, que precisam de ser “administradas” de modo a não causarem danos ao centro europeu, ou rejeitam a perda de soberania e serão forçados a sair do Euro.

Historicamente, a teleologia integracionista é inspirada por uma interpretação errada da unificação política da Alemanha. Não foi a conclusão “lógica” de um hipotético processo linear de integração económica iniciado na Zollverein; foram necessárias duas guerras para afirmar a hegemonia política da Prússia sobre os restantes estados da confederação germânica, em 1864 contra a Dinamarca e o império Austro-Húngaro e em 1870 contra a França. Politicamente, o problema de legitimidade é insolúvel e o aprofundamento só pode agravá-lo: a UE não é nem nunca será uma democracia representativa porque não existe nenhuma demos europeia. Como sublinhou Raymond Aron, a ideia política europeia é vazia; não tem a transcendência das ideologias messiânicas nem a imanência do patriotismo concreto. A UE nasceu da paz; nunca será uma potência geopolítica mas tem a capacidade de criar condições materiais satisfatórias para os europeus, na diversidade das tradições políticas ocidentais. Quando os europeístas descobrirem que a sua ficção é impotente contra aquilo que Clausewitz chamava de fricção -a resistência da realidade contra o avanço dos planos, nada restará a não ser o vazio. E esse sim, voltará a ser um mundo perigoso para os europeus