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O fracasso do multiculturalismo

Finacial Times

Germany’s attempts to form a multicultural society have “absolutely failed”, Angela Merkel, chancellor, has said in a stark intervention in the country’s increasingly strident arguments about immigration.(…) Ms Merkel said integration was now a “central issue”. Germany had “kidded itself” migrant workers invited to the country from the 1960s would not stay: “That is not the reality. The ‘multi-culti’ approach that we can live alongside each other … has failed, absolutely failed.”

Os descendentes de Voltaire

Artigo de Fernando Gabriel no Díário Económico

A terceira censura de um episódio da série televisiva South Park onde aparecia Maomé, colocou estes bonecos medíocres no centro de uma discussão global com a paixão que noutros tempos era dedicada aos escritos de Voltaire.

Talvez seja menos descabido do que parece. “Cherchez le démagogue”: em 1993, um intelectual suíço liderou um movimento de protesto contra a reencenação da peça Fanatismo, ou o Profeta Maomé, escrita por Voltaire em 1736. O protesto resultou no cancelamento da peça e tornou conhecido o autor -nunca assumido- da chantagem: Tariq Ramadan.

Desde então Ramadan, descendente de Hassan al-Banna, o fundador da Irmandade Islâmica e defensor da proibição da democracia representativa, foi promovido a porta-voz do islamismo político “reformista” por intelectuais aparentemente insuspeitos, como Timothy Garton Ash e Ian Buruma.

Este último chegou mesmo a assegurar que Ramadan era “um dos raros intelectuais islâmicos que se opunha ao anti-semitismo”. Talvez estivesse demasiadamente ocupado para ler a prolífica obra de Ramadan, onde não teria dificuldade em encontrar inúmeras citações aprovadoras de Yusuf al-Qaradawi, um apologista convicto do terrorismo suicida palestiniano. Uma biografia de Maomé, publicada em 2007, recebeu o ‘nihil obstat’ das recensões à esquerda, com uma editora da Foreign Affairs a garantir que a interpretação de Maomé proposta por Ramadan era “progressiva” e permitia “reconciliar” o Islão com o liberalismo ocidental contemporâneo’.

Afinal, qual é o conteúdo do islamismo “progressista” de Ramadan? Ramadan declara-se, por exemplo, “feminista”. Se defende a estrita separação dos sexos, ou as imposições de indumentária ocultadora do corpo é porque, argumenta, só a modéstia pode libertar a mulher do desejo sexual masculino, predatório e opressor. Neste estranho mundo, a auto-anulação é autonomia e a segregação é igualdade. Conferir liberdade aos indivíduos consiste em forçá-los a assumir uma identidade concebida por oposição à identidade de uma maioria imaginária, que oprime uma minoria, também ela imaginária. Se por desventura ou distracção, indivíduos concretos, como Ayaan Hirsi Ali ou outras mulheres, não compreenderem o poder emancipador dessa identidade, há que empregar a coerção necessária à sua “libertação”. Este islamismo político é obviamente incompatível com os princípios fundamentais de qualquer doutrina que se pretenda liberal.

Nem toda a esquerda aceitou o absurdo, ou a incongruência ideológica de investir reaccionários como Ramadan em símbolos dos “oprimidos”: apenas a esquerda atraída pelo simulacro de luta de classes antevisto no islamismo suburbano europeu se dispôs a silenciar a influência ideológica totalitária sobre o islamismo, substituindo-a por uma roupagem neo-realista de imigração e “exclusão” social, procurando transformar reaccionários em vítimas, numa ficção sociológica que pretende legitimar o terrorismo. Alguns intelectuais árabes também não se deixaram enganar pela impostura, como o tunisino Abdelwahab Meddeb, uma genuína voz de esperança para os que acreditam na possibilidade de regeneração civilizacional islâmica; ou o novelista marroquino Tahar Ben Jelloun, vencedor do prémio Gouncourt e que atribui ao avô de Ramadan a perversão do Islão. Ao negar apoio a estes e outros que lutam por maior liberdade no mundo islâmico, a esquerda descendente de Voltaire cometeu a sua derradeira traição e deixou uma mancha indelével de cinismo e cobardia na história política ocidental.

Harvard e o Ácido da Civilização

Artigo de Fernando Gabriel na Nova Cidadania (2005)

 O multiculturalismo enquanto ideologia política tem origem no relativismo cultural, que retirou à cultura o seu significado tradicional de processo educativo, de desenvolvimento da razão, e lhe conferiu um sentido completamente diferente: “cultura” passou a designar o conjunto de “práticas sociais caracterizadoras” das diferentes comunidades. O relativismo cultural nega a existência de qualquer forma de superioridade cultural: todos, bárbaros ou civilizados, temos uma “cultura” que é definidora da “identidade”. Todas as “culturas” são formalmente iguais, não comparáveis entre si e igualmente legítimas. A aceitação deste juízo de valor implica a necessidade política de “reconhecimento” e de protecção da “diversidade cultural”. No entanto, o multiculturalismo não é uma variante da tolerância liberal, antes representando uma versão extrema de intolerância. O discurso político multiculturalista transpõe para o plano cultural a representação marxista da sociedade como palco de uma permanente luta de classes. No cerne do projecto político multiculturalista não está a defesa da “diversidade cultural”, nem a necessidade de “reconhecimento” das outras culturas. O objectivo é promover uma revisão crítica e radical da “cultura ocidental”, susceptível de expor a corrupção e a decadência das democracias liberais. Nas variantes menos agressivas, as sociedades liberais devem ser politicamente reprogramadas obedecendo à pós-moderníssima “celebração da diferença”. Nas variantes niilistas, há que consumar a desconstrução do “projecto iluminista”, responsável por sociedades despóticas, assentes numa cultura de “opressão e exploração do outro”. As categorias do “opressor” e do “oprimido” são portanto as novas máscaras ideológicas do determinismo historicista hegeliano. Por um lado, a representação do “opressor” é deliberadamente redutora e caricatural: não existe nenhum “projecto iluminista”, mas sim uma multiplicidade de formas concretas de organização política resultantes de processos de composição histórica, onde factores aleatórios e imprevisíveis tiveram e têm um papel essencial. Por outro lado, a representação multiculturalista do “oprimido” também assenta em noções deliberadamente equívocas. A noção de “cultura” é enganosa: na maioria dos casos, as “culturas” não têm nenhum contexto geográfico e a “partilha de identidade” não é determinada pela história do indivíduo, mas sim pela sua função puramente ideológica. O interesse pela “cultura do outro” é meramente instrumental e sugere uma falsa “diversidade”: o afro-americano, a mulher ou o gay desempenham a função circunstancialmente útil de categoria cénica do “oprimido”. Para os defensores do multiculturalismo, a acumulação de riqueza e o prodigioso aumento de bem-estar conseguido pelas democracias liberais são um mito capitalista, uma fachada ideológica sob a qual a modernidade pretende esconder a sua pecaminosa história de exploração e imperialismo, de opressão sexual e racial.