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Quem te manda a ti sapateiro tocar rabecão (5)

O mal de repetirmos sentenças alheias em assuntos nos quais, clara e minimamente,  não dominamos é que arriscamos a ser repetidores de falácias grosseiras. Este risco é potenciado quando a fonte utilizada também está claramente fora da sua “zona de conforto”.

Um caso exemplo do que acima referi é o deste blogger que “simplesmente” se limita a repetir este artigo de Ferreira Fernandes sobre uma descida de notação da dívida grega em 1931 pela Moody’s que teria causado grandes infortúnios ao país e conduzido, anos mais tarde, à ditadura fascista do General Metaxas (que curiosamente enfrentou e derrotou a Itália fascista quando esta o tentou invadir em 1940/41). Ora Ferreira Fernandes pode ser um bom cronista mas se quiser falar sobre temas económicos necessita verificar a veracidade dos factos que relata e dedicar-se ao estudo da questão.

Aproveito para esclarecer os factos em causa. Um rápida pesquisa sobre o tema na wikipedia permite clarificar a questão. Leiam os dois curtos parágrafos sobre o período temporal em questão (“Dichotomization of the drachma” e “The Great Depression”).  Nos anos 20/30 do século passado (tal como agora) a Grécia não necessitou da “ajuda” das agências de notação para destruir a sua moeda e a economia. Os gregos mostram ser capazes de sozinhos darem boa conta do recado. E recordo que bastava recordar a mais que conhecida conjuntura económica internacional do período histórico em causa (aos anos30) para levantar suspeitar quanto à tese de Ferreira Fernandes.

Que este episódio nos sirva a todos de lição. A começar por mim.

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Acerca do corte de notação da dívida portuguesa pela S&P

Declaração de Adolfo Mesquita Nunes (CDS) acerca do corte de rating anunciado pela Standard & Poors (19.91.2012). Finalmente, na AR, alguém faz uma intervenção lúcida e racional sobre o tema e identifica a origem do poder de mercado das principais agências de notação.

Decidam-se

Ou as agências de notação são credíveis ou não são.

A solução é menos regulação e mais concorrência

Como já se esperava, os recentes “downgrades” na dívida soberana fizeram disparar as críticas às agências de notação e os pedidos que estas sejam politicamente controladas (ie deixem de desempenhar qualquer papel relevante na análise de risco). O ministro das finanças alemão propõe que se pense “na forma (…) [de] podemos limitar o papel das agências de ‘rating’ àquilo que elas são realmente“. Eu dou uma sugestão. Reduzam a regulação no sector. Acabem com o cartel concedido pelas autoridades comunitárias e americanas à Moody’s, S&P, Fitch e DBRS. Deixem a concorrência funcionar.

Alguém que sabe do que fala (para variar)

Jornal de Negócios

O analista Marc Faber, célebre por ter previsto o “crash” bolsista de 1987, acha que a maioria dos países europeus devia ser considerado “lixo”. E diz que o corte de França foi insuficiente (…) pois não reflecte as contínuas tensões sistémicas da economia do país. Segundo Faber, a qualidade do crédito soberano de França não é boa.(…)

Sobre os Estados Unidos, o analista diz que o “rating” deste país devia ser ‘triplo B’ ou mesmo “lixo”, atendendo aos contratos de dívida que estão para vencer e que não têm fundos para serem suportados.

Faber sublinhou ainda à CNBC que não compraria obrigações soberanas de França ou dos Estados Unidos. Acrescenta, aliás, que não investiria em obrigações soberanas como investimento de longo prazo, pois perderia dinheiro. Quanto à Alemanha, o analista considera que “está ok”, mas que tem também muita dívida em mãos.

Marc Faber acha que estes cortes anunciados ontem pela S&P não terão um efeito significativo nos mercados accionistas mundiais, tal como aconteceu quando a agência desceu a notação dos EUA. Além disso, salienta, “a maioria dos ‘downgrades’ já foi descontada na Europa”.

O que poderá mexer com as bolsas, no entender de Faber, é se algum país disser “estamos fartos, vamos sair do euro”. “Se a Grécia o fizer, não será um desastre. Mas se a Grécia, Portugal, Espanha e Itália o fizerem, então isso terá um enorme impacto” nos mercados, referiu à CNBC

Preparem-se

Vem aí uma nova enxurrada de artigos sobre (leia-se contra) as agências de notação. Vão desenterrar a proposta (idiota) para criar uma agência europeia, os especialistas instantâneos vão deixar voltar a contar-nos sobre a malevolência das agências. Vão exigir mais regulação, multas, blá, blá, blá. Daqui a uma semana esgota-se-lhes a sapiência e tornam-se especialistas noutra coisa qualquer.

Acerca do “downgrade” da Fitch

Camilo Lourenço

Há duas formas de olhar para o corte no rating. Uma é dizer que a política que estamos a seguir está errada (como sugeriu Pedro Marques). A outra é lembrar ao deputado que a decisão da Fitch, e o facto de os nossos juros não acompanharem a descida dos juros irlandeses (seis pontos percentuais desde 21 de Julho), pode ter outra leitura: Portugal não foi suficientemente longe no corte de despesa.

Eu que ainda tenho memória…

Recordo claramente uma altura em que as agências de notação não tinham qualquer credibilidade . Mas, como se sabe, as opiniões são algo voláteis. Particularmente as destes “especialistas”.

Se ignorarmos os problemas eles desaparecem

Para quem ainda precisava, mais uma evidência da insanidade comunitária. Em vez de alterar os seus próprios regulamentos que ofereceram uma posição dominante à S&P, Moody’s e Fitch permitindo uma maior concorrência e clarificação no mercado, a UE prefere proibir que estas dêem más notações.

A União Europeia (UE) quer proibir as agências de ‘rating’ de avaliar Estados, noticia hoje o matutino alemão Financial Times Deutschland, que teve acesso a um projeto ainda confidencial do comissário europeu para o mercado interno, Michael Barnier.

No projecto de reforma da lei sobre as agências de ‘rating’, Barnier propõe que a nova agência europeia de supervisão de títulos bolsistas, a ESMA, passe a ter o direito de «proibir temporariamente» a publicação de avaliações sobre a solvibilidade financeira dos Estados.

A Comissão Europeia quer ver esta proibição aplicada sobretudo a Estados que negociaram ajudas externas com a União Europeia ou com o FMI.

«Uma proibição podia impedir que haja uma avaliação de uma agência de ‘rating’ em momento inoportuno, com consequências negativas para a estabilidade financeira do país em questão, e eventuais efeitos desestabilizadores para a economia mundial», afirma-se no projecto citado pelo Financial Times Deutschland

Constato

Nos últimos dias vieram à superfície muitos e inusitados especialistas em notação financeira. Algumas até são divertidas. Menos divertido é estarema dar uma mãozinha a mais um dispendioso e inútil projecto comunitário. A (quase) unanimidade, que vai de extremo a extremo do espectro político, devia-nos fazer pensar duas vezes. Ou três.