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Os cínicos e os tontos

Artigo de Fernando Gabriel no Diário Económico

[A]s televisões e o YouTube deram ao “homem árabe” aquilo que nem Jacques-Louis David nem Eugène Delacroix puderam oferecer aos esboços do “homem universal” -o de 1789 e o de 1848, que animou a “Primavera dos povos”: uma narrativa construída em tempo real, dinâmica e com uma aparência de autenticidade. Não seria desavisado tratar essa narrativa com cepticismo: como recordou a historiadora Anne Applebaum, a televisão cria uma estória linear que pouco mais é do que ficção. Por exemplo, os acontecimentos no Bahrain são inteligíveis como o despertar da longa noite da autocracia, ou trata-se de mais um episódio do sectarismo religioso islâmico, num país-ilha com uma população maioritariamente xiita governada por uma monarquia sunita? Um eventual sucesso dos xiitas é um triunfo da “democracia” ou uma extensão geográfica do poder iraniano?(…)

Quando Mubarak abandonou o poder, tinha um livro de Raymond Aron sobre a mesa de trabalho, do qual traduzo um excerto: “não é o sufrágio universal, esse instituto político discutível e ulterior, nem o sistema parlamentar, que é um procedimento democrático entre outros, mas a liberdade, cujas condições históricas foram a dualidade dos poderes espiritual e temporal, a limitação da autoridade do Estado e a autonomia de instituições como as universidades”. Só um tonto não reconhece a inexistência de condições históricas de liberdade nos países árabes; só um tonto perigoso pode supor que organizações como a Irmandade Islâmica, que se propõe “islamizar o conhecimento”, oferecem garantias de manutenção de uma pax dei não segregadora. Quem estiver disposto a perceber o que se passa deve começar por desligar a televisão e aceitar que a “democracia” não chegará ao mundo árabe como os frangos ao supermercado: previamente acondicionada e pronta a cozinhar de acordo com a receita na embalagem.