Tag Archives: reestruturação

I told you so

Após muita resistência consta que o BCE irá finalmente aceitar um “haircut” na dívida grega que detém.  Três considerações.

Primeiro. Segundo cálculos efectuados por vários analistas para colocar a dívida grega num patamar sustentável a reestruturação terá de eliminar cerca de 70% do montante em dívida. Portanto, mesmo com a participação do BCE (que dados os montantes de dívida que detém nunca poderia ficar fora deste processo) qualquer valor significativamente mais baixo não será credível para o mercado. Digo eu.

Segundo. Uma vez que duvido que os títulos gregos estivessem contabilizados a valor de mercado no balanço do BCE isto implicará uma importante “rombo” nas contas do banco central europeu.  Quem irá participar num eventual aumento de capital? Pois.

Terceiro. Ainda seja fundamental a reestruturação da dívida grega não percebo os festejos deste blogger. Se o acesso aos mercados já era difícil agora ficará impossível. A não ser que descubram entretanto uma fonte inesgotável de riqueza isto vai implicar (ainda) mais provações para o povo grego. Se o próprio BCE se arrisca a perder o dinheiro que emprestou à Grécia que é que lhe vai emprestar dinheiro agora? Eu não.

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Quem te manda a ti sapateiro tocar rabecão? (4)

quem ainda viva na ilusão que a (necessária) reestruturação da dívida pública portuguesa iria evitar a continuação da austeridade. Parece ser incapaz de tirar ilações das suas próprias preposições. Quando diz “não vamos pagar a nossa dívida. Ponto final. Não é política, é matemática” não lhe ocorre que isto se deve ao desmesurado crescimento do endividamento público e que o estado não pode continuar a incorrer em sucessivos défices orçamentais. Mesmo que nos perdoassem 30 a 40% da dívida pública continuariamos com uma elevada factura para pagar.

 E contrariamente ao que ele julga, a reestruturação não pode ser feita sem o consentimento da “troika” e sem o assentimento dos credores. Porque os segundos, que actualmente já não nos emprestam dinheiro, irão exigir vários anos (décadas?) de bom comportamento orçamental para nos voltarem a dar crédito. E especialmente porque a primeira entidade é quem actualmente nos garante a maior parte do dinheiro para pagar salários aos funcionários públicos, subsídios e outros os fornecimentos e serviços ao estado.

 O Daniel Oliveira até pode estar a “marimbar[-se] para a troika“. Mas reze para que eles não nos devolvam o gesto. Palpita-me que passará a escrever as crónicas num jornal de parede. Até nem são precisos grandes conhecimentos de economia para perceber isto. Basta algum bom senso.

Ainda acerca do referendo grego

Não podia estar mais de acordo com que o Nuno Ramos de Almeida escreve no 1º parágrafo deste artigo. A chamada “construção europeia” é obra de elites supostamente esclarecidas e, preferencialmente, outorgado ao povo por decreto. Porém, discordo em absoluto dos restantes argumentos.

A politica económica da Grécia é frequentemente referendada em eleições e escolha dos eleitores sempre foi o despesismo. Provavelmente, o que nunca imaginaram foi que chegaria o momento de pagar a conta. Mesmo que venha a ser acordado uma reestruturação que coloque a dívida grega num nível sustentável a austeridade é sempre inevitável. Até porque a Grécia vai ficar muitos e bons anos sem acesso aos mercados de crédito e vai ter um longo e penoso trabalho para os convencer que daquela vez tenciona mesmo honrar as suas dívidas. Os gregos até podem decidir que não querem a austeridade imposta pelo exterior. Só que isso levará à interrupção no financiamento externo e implicará um ajustamento muito mais rápido e violento. Um terreno bastante fértil para “gerar [a] injustiça, o ódio e talvez a guerra“.

Como seria de esperar

Bancos alemães suspendem acordo para o perdão da dívida grega

Está-se mesmo a ver que os analistas do costume vão aproveitar para sublinhar o carácter anti-democrático dos mercados.

Sobre o referendo grego

“Roleta Grega” de Pedro Bráz Teixeira (Cachimbo de Magritte)

Uma dívida de 120% do PIB é muito dificilmente sustentável, mas ter uma dívida desta dimensão depois de uma reestruturação (que conduz a taxas de juro muito mais elevadas) é absurdo, é uma mera perda de tempo e dinheiro até à próxima reestruturação da dívida.(…) Convém ainda esclarecer que a recusa das condições de ajuda externa não vai dispensar a Grécia de medidas de contenção orçamental, muito pelo contrário. Ao ser forçada a uma reestruturação da dívida muito mais intensa, não haverá qualquer tipo de financiamento disponível, pelo que o défice sem juros (défice primário) terá que ser totalmente eliminado no imediato.

“Surpresa: A Grécia Ainda é um País Soberano” de Filipe Faria (O Insurgente)

Não há saída indolor deste processo de dívida indomável; os custos do processo são incalculáveis. Dizer que esta ou aquela solução terá maiores ou menores custos é sempre um exercício especulativo (que normalmente revela o grau de eurofilia do especulador). Contudo, o que não é especulativo é que ao dizerem que não neste referendo os gregos podem recuperar a liberdade para organizarem (ou desorganizarem) a sua casa como querem, sem imposição externa e sem depender de fundos de contribuintes de países terceiros. Se os gregos querem contrair dívida, fugir aos impostos ou comprar carros de luxo a rodos é algo que a eles lhes diz respeito, desde que internalizem as consequências. É esse o preço da responsabilidade que é indissociável da liberdade.

O “haircut” grego

Após vários meses de negação os líderes da UE finalmente acordaram a reestruturação da dívida grega. Mas será suficiente? O que foi acordado foi o perdão de 50% da dívida privada. Segundo o Público esta “ascende actualmente a 210 mil milhões num total de 350 mil milhões de euros”. Contas simples, serão perdoados 105 mil milhões de euros o que equivale a 30% da dívida total. Várias estimativas apontavam para valores na ordem dos 60-70% da dívida total. Isto é, duvido muito que fiquemos por aqui.

Em cada banqueiro, um comediante (2)

EU Observer

International banks are resisting EU efforts to have Greek bondholders to accept big losses on their investment, the Irish Times reports. The Institute of International Finance banking lobby said it continued to “explore options” with the European authorities “which could contribute to a realistic vision for the Greek economy”.

Tudo menos admitir que a Grécia nunca irá pagar aquele stock de dívida.

Em cada banqueiro, um comediante

O presidente do BPI, Fernando Ulrich, discorda do eventual perdão parcial da dívida soberana grega, advogando que tal decisão significa “reconhecer que a dívida soberana dos países da Zona Euro perde o estatuto de activo sem risco

O desespero dos banqueiros com a perspectiva da reestruturação da dívida grega não devia surpreender ninguém. Podia era assumir um forma mais digna e menos ridícula. Reparem que para Ulrich é o reconhecimento da realidade. Que a dívida grega tenha ultrapassado a estratosfera e não exista forma de ser redimida parece ser um pormenor secundário. Aceitar o “haircut” implica também que os bancos reconheçam que andaram a comprar “lixo” demasiado tempo e sem se preocuparem grandemente com as implicações. Alguém haveria de pagar o seu laxismo. Reparem que para o presidente do BPI nada disto terá a ver com a exposição do BPI à divida grega. Pois.

Understanding the Second Great Contraction: An interview with Kenneth Rogoff

Alguns excertos da entrevista de Kenneth Rogoff ao McKinsey Quarterly (meus destaques)

The historical experience gives a very clear view that the aftermath of a financial crisis brings slow and halting growth, sustained high unemployment, and surging public debt—with the overhang of public and private debt being the most important impediment to a normal recovery from recession. (…) Continuar a ler

Duas notas

1. Parece que se estar a formar um consenso acerca da oportunidade da emissão das eurobonds. Espanta-me ver tanta e tão boa gente a concordar com esta irresponsabilidade (já nem falo de socialistas e comunistas que apenas pretendem uma forma de continuar a saga despesista). Já não se recordam das origens desta crise? Eu dou uma ajuda. Lembram-se do subprime? Dos títulos de alto risco que eram vendidos no meio de outros com risco reduzido e recebiam ratings AAA e ajudaram a disseminar a crise? Para os mais esquecidos este artigo do WSJ compara-os às eurobonds e avisa-se que isto pode criar uma crise ainda maior que a actual. Depois não se queixem.

2. A sério. Não percebo os apelos para que se evite a todo o custo o default da Grécia. Na prática, a Grécia já não tem dinheiro para pagar as suas obrigações e está a viver à custa de mais empréstimos dos credores. Na prática, estamos apenas a substituir dívida privada (maioritariamente de bancos) por dívida pública (dos restantes países-membros). Estamos a agravar a factura da Grécia e potenciar crises de finanças públicas noutros países da UE. Como diz o director-geral da PIMCO, se queremos evitar o efeito dominó devemos deixar falir Grécia, Irlanda e Portugal.