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Ainda acerca do referendo grego

Não podia estar mais de acordo com que o Nuno Ramos de Almeida escreve no 1º parágrafo deste artigo. A chamada “construção europeia” é obra de elites supostamente esclarecidas e, preferencialmente, outorgado ao povo por decreto. Porém, discordo em absoluto dos restantes argumentos.

A politica económica da Grécia é frequentemente referendada em eleições e escolha dos eleitores sempre foi o despesismo. Provavelmente, o que nunca imaginaram foi que chegaria o momento de pagar a conta. Mesmo que venha a ser acordado uma reestruturação que coloque a dívida grega num nível sustentável a austeridade é sempre inevitável. Até porque a Grécia vai ficar muitos e bons anos sem acesso aos mercados de crédito e vai ter um longo e penoso trabalho para os convencer que daquela vez tenciona mesmo honrar as suas dívidas. Os gregos até podem decidir que não querem a austeridade imposta pelo exterior. Só que isso levará à interrupção no financiamento externo e implicará um ajustamento muito mais rápido e violento. Um terreno bastante fértil para “gerar [a] injustiça, o ódio e talvez a guerra“.

O irresponsável

Com uma proposta extemporânea e inútil para referendar um dos muitos acordos que assinou, George Panpandreou conseguiu levar ainda mais fundo a péssima reputação da Grécia junto de credores e financiadores cujo acordo o estado grego desesperadamente necessita. Por outro lado, estes ficam com o ónus de impedirem o povo grego de expressar a sua vontade. O que nunca explicou aos seus eleitores foi a forma como estes iriam sobreviver sem ajuda externa enquanto decorriam os trâmites legais para a realização do referendo. A situação já era desesperada e Panpandreou resolveu lançar uma significativa quantidade de gasolina para a fogueira.

Como seria de esperar (3)

Os governos da zona euro ameaçam congelar a sexta tranche de ajuda à Grécia.

A realização do referendo coloca em causa o último acordo com bancos, FMI e UE. (para já não falar da extrema dificuldade que os gregos têm em cumprir o que acordam). Será esperavam que as outras partes continuassem a cumprir?

Como seria de esperar (2)

A directora do Fundo Monetário Internacional (FMI) afirmou nesta quarta-feira que a sua decisão sobre o empréstimo da instituição à Grécia depende do resultado do referendo que Atenas pretende lançar sobre o plano anti-crise da zona euro.

Como seria de esperar

Bancos alemães suspendem acordo para o perdão da dívida grega

Está-se mesmo a ver que os analistas do costume vão aproveitar para sublinhar o carácter anti-democrático dos mercados.

Sobre o referendo grego

“Roleta Grega” de Pedro Bráz Teixeira (Cachimbo de Magritte)

Uma dívida de 120% do PIB é muito dificilmente sustentável, mas ter uma dívida desta dimensão depois de uma reestruturação (que conduz a taxas de juro muito mais elevadas) é absurdo, é uma mera perda de tempo e dinheiro até à próxima reestruturação da dívida.(…) Convém ainda esclarecer que a recusa das condições de ajuda externa não vai dispensar a Grécia de medidas de contenção orçamental, muito pelo contrário. Ao ser forçada a uma reestruturação da dívida muito mais intensa, não haverá qualquer tipo de financiamento disponível, pelo que o défice sem juros (défice primário) terá que ser totalmente eliminado no imediato.

“Surpresa: A Grécia Ainda é um País Soberano” de Filipe Faria (O Insurgente)

Não há saída indolor deste processo de dívida indomável; os custos do processo são incalculáveis. Dizer que esta ou aquela solução terá maiores ou menores custos é sempre um exercício especulativo (que normalmente revela o grau de eurofilia do especulador). Contudo, o que não é especulativo é que ao dizerem que não neste referendo os gregos podem recuperar a liberdade para organizarem (ou desorganizarem) a sua casa como querem, sem imposição externa e sem depender de fundos de contribuintes de países terceiros. Se os gregos querem contrair dívida, fugir aos impostos ou comprar carros de luxo a rodos é algo que a eles lhes diz respeito, desde que internalizem as consequências. É esse o preço da responsabilidade que é indissociável da liberdade.