O preço (in)certo

Publicado na revista Dia D a 12/05/2006

Num popular concurso televisivo, o apresentador pede aos concorrentes para adivinharem o preço de determinados produtos. O vencedor será aquele cujo palpite mais se aproximar do preço de venda. Como seria de esperar em qualquer concurso, poucos são os que conseguem ganhar o prémio final. Por que razões falham tanto os concorrentes?

Em primeiro lugar, pela ausência ou incapacidade de articular a informação relevante. A complexidade das relações económicas e a quantidade de produtos oferecidos é tal que se torna humanamente impossível, para quem quer que seja, dispor em tempo real de toda a informação necessária. Mesmo para um batalhão de economistas (segundo alguns uma verdadeira arma de destruição em massa) munidos de um sofisticado sistema de computadores tal tarefa assumiria um carácter utópico, especialmente se tivermos em conta o permanente dinamismo do mecanismo de preços.

Esta incapacidade para lidar, de forma centralizada, com a complexidade da informação e a incerteza daí decorrente, é aliás um dos grandes argumentos contra a planificação central, em que o Estado assume um papel director da economia. Mesmo se excluirmos eventuais decisões motivadas por critérios políticos (para além dos estritamente económicos) e atribuíssemos o “comando central” a uma equipa de sábios, não há qualquer garantia de que as suas decisões seriam melhores que as dos indivíduos que têm uma melhor percepção da informação que, para si, é verdadeiramente relevante. Para além disso, qualquer erro da sua parte terá (pela sua dimensão) resultados bem mais gravosos do que uma qualquer decisão descentralizada que apenas afecta de forma directa alguns indivíduos.

Outra razão que leva a que as respostas dos concorrentes assumam valores díspares é provavelmente o carácter subjectivo que o valor dos produtos tem para os indivíduos. Este conceito foi formulado, de forma independente e quase simultânea, no final do Séc. XIX por Carl Menger, William Jevons e Léon Walras. Ao contrário do que sugeria o “pai” da ciência económica moderna Adam Smith (numa teoria seguida por Karl Marx e que ainda hoje se mantém popular entre não economistas) o preço dos produtos não é uma função do custo de produção mas sim das preferências dos consumidores. Desta forma, diferentes concorrentes tenderão a avançar com diferentes estimativas do preço do mesmo produto em parte como reflexo da diferente valorização que eles lhe atribuem.

Para além dos motivos acima citados, poderá ainda existir outra razão que leva a que a percepção acerca dos preços divirja entre indivíduos. Desde a introdução do Euro que se tornou mais fácil, e tem constituído uma obsessão de certos indivíduos na Comissão Europeia, a comparação de preços entre os diversos países da Zona Euro. No entanto, mesmo dentro do mesmo país há diferenças substanciais no preço de produtos vendidos em condições semelhantes. Como explicar estas disparidades?

Em primeiro lugar, pela (já referida) questão da informação. Se a informação acerca do preço de todos os bens pudesse estar imediatamente disponível de forma universal e gratuita estas diferenças seriam em muitos casos atenuadas. As diferenças de preços motivadas por diferenças de informação constituem assim oportunidades de negócio para indivíduos cuja única actividade consiste em comprar onde é mais barato e vender onde é mais caro. Segundo a opinião de alguns, estes intermediários são “parasitas” que se alimentam da ignorância alheia. Porém, se olharmos com atenção, são estes que permitem a equalização dos preços e, indirectamente, também da informação, através dos ajustamentos nos preços induzidos pelas suas actividades. Para além deste problema, os preços variam também devido a outros factores como a riqueza relativa, a taxa de inflação e os custos de transporte e de transacção de cada país ou região.

Por todas as razões apresentadas, o “preço certo” é na realidade económica um conceito individual, subjectivo e bastante incerto. Não admira que o palpite dos concorrentes no concurso raras vezes acerte.

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