O reich dos mujahidin

Artigo de Fernando Gabriel no Diário Económico

De entre as armas que o filo-islamismo incorporou no arsenal retórico anti-israelita, a mais vergonhosa é a acusação de “neo-nazismo”.

Não só pela imoralidade implícita, que devia ser óbvia, mas porque procura reescrever a história de modo a branquear a influência decisiva do nazismo e de nazis na definição do islamismo como doutrina ideológica revolucionária e anti-ocidental. A ligação entre o islamismo e o nazismo inicia-se na II Guerra Mundial. Por sugestão de dois generais turcos em visita a Berlim, a Abwehr, a unidade de intelligence da Wehrmacht, decide criar batalhões de infantaria islâmicos. O sucesso das unidades iniciais levou à sua proliferação: estima-se que cerca de 250000 muçulmanos serviram e combateram pela Alemanha nazi. As vulgatas ideológicas da história do pós-guerra atribuem a potência destruidora do islamismo contemporâneo ao recrutamento e financiamento americano de mujahidin afegãos no combate contra a ocupação soviética. Na verdade, a quinta coluna do islamismo formou-se na Alemanha cerca de 30 anos antes, em torno da construção da mesquita de Munique, um projecto impulsionado por Gerhard von Mende, o arquitecto ideológico da cooptação de islamitas para a causa nazi, entretanto recrutado pela CIA para a guerra psicológica contra a URSS e que até ao início da década de 60 seria um elemento crucial na ligação entre a CIA e os dissidentes muçulmanos de origem soviética.

No excelente A Mosque in Munich (Boston, 2010) o jornalista Ian Johnson relata o modo como um grupo de radicais ligados à Irmandade Islâmica e liderados por Said Ramadan -o pai do ubíquo Tariq- aproveitou o financiamento ocidental para disseminar o islamismo entre os muçulmanos europeus. Um analista da CIA dos anos 50 viu com clareza o carácter revolucionário do islamismo, algo que hoje parece turvo para muitos. No perfil psicológico de Ramadan, o agente descreve-o como um “reaccionário, de tipo falangista ou fascista”, uma observação facilmente aplicável a Hassan al-Banna ou a Sayyid Qutb e crucial para a compreensão do islamismo: é uma doutrina anti- tradicionalista e totalitária na submissão da vida moral a desígnios ideológicos. Parafraseando Eric Hoffer, para o islamita, a liberdade de pensamento não é só contra-revolucionária -é uma apostasia punível com a morte.

O branqueamento do islamismo conduz à relativização do terrorismo: observe-se, por exemplo, o contorcionismo de Eric Holder, o procurador-geral norte-americano, incapaz de admitir perante o Comité Judicial da Câmara do Representantes que o islamismo é a motivação ideológica dos ataques terroristas aos EUA. O negacionismo de Holder recorda-me uma passagem do notável romance La Village de L’Allemand (Paris, 2008) do escritor argelino Boualem Sansal, o relato da descoberta do horror do Holocausto pelos filhos de Hans Schiller, um SS refugiado na Argélia e o rosto ficcional de inúmeros nazis que disseminaram o anti-semitismo pelo mundo árabe. No romance, quando um grupo de banlieusards decide organizar-se para resistir ao islamismo, descobrem que o termo “islamita” foi suprimido do dicionário. A supressão lexical é um tropo da cumplicidade cobarde e demissionária do ocidente e o romance funciona como uma séria advertência moral para as consequências do branqueamento do islamismo: o califado, o Reich dos mujahidin, é um horror totalitário, um crime cuja cumplicidade condenará pais e filhos por igual.

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